"Importação" de cérebros enfurece alemães Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 10 (AE) - Na Alemanha, o povo reclama contra os imigrantes. E o que foi que levantou as cinzas e espevitou a chama? O chanceler social-democrata Gerhard Schrder decidiu conceder 30 mil vistos de trabalho para indianos ou imigrantes do Leste Europeu especializados em informática.
A Alemanha está furiosa: o país tem 4 milhões de desempregados. Não é uma aberração apelar para os estrangeiros? O líder da CDU (União Democrata Cristã) da Westfália do Norte, Jurgen Ruttgers, respondeu violentamente : "Kinder statt Inder" (Filhos, em vez de indianos).
Schrder foi obrigado a reduzir as "quotas" previstas: serão importados apenas 20.000 informáticos indianos.
Todos os países europeus conhecem o mesmo pavor. A nova "revolução industrial", a da Net, desperta, num sobressalto, este "monstro" que se arrasta pela Europa há cinquenta anos: o medo dos imigrantes. No caso da informática, não se receia uma imigração maciça, mas é uma imigração ultra-sofisticada. O perigo é, portanto, mais restrito, mas igualmente ameaçador: em primeiro lugar, existe o receio de que os estrangeiros ocupem lugares nevrálgicos da Nova Economia. E, depois, há o temor de que estes técnicos excepcionais possam exercer uma espécie de chantagem, porque uma partida súbita desta mão-de-obra rara poderia paralisar toda uma economia.
Apesar disso, a maior parte dos países europeus segue estreitamente os passos da Alemanha. Cada um deles, com suas modalidades e seus artifícios. A França entrou nisso há um ano: na perspectiva do "bug do milênio" (que aliás não se concretizou), mil engenheiros (romenos, russos e os inevitáveis indianos) entraram legalmente em território francês.
Em todos esses casos, são os patrões que promovem a abertura das fronteiras no campo da informática: e isso que constitui um paradoxo.
Tradicionalmente, a classe patronal, mais próxima da "direita", manifesta-se contrária à entrada de imigrantes, mas a necessidade faz a lei: se quisermos fazer girar a máquina econômica, precisamos de cérebros indianos!
Na Suécia são os patrões que exigem "indianos". O mesmo acontece na Dinamarca, mas o governo de coalizão (sociais-democratas e radicais) se recusa a reabrir as fronteiras. Na áustria, apesar da presença do governo de extrema-direita de Jorg Haider, vai ser aberta uma "quota" de 1.200 especialistas em informática.
A Irlanda, que tem uma taxa de crescimento de 7% ao ano (um verdadeiro "pequeno tigre" europeu), está "condenada" a fazer "o mercado de cérebros", se quiser alimentar seu milagre econômico. A Irlanda está distribuindo vistos de forma extremamente generosa para países não-europeus.
A irritação que vastos setores da sociedade está sentindo ante a idéia de ver penetrar em sua "pátria" outros seres de paragens longínquas revela como a questão da imigração continua sendo explosiva, passional e irracional.
Isso nos dá uma idéia do que irá acontecer dentro de alguns anos, quando unicamente pelo "jogo da demografia", a Europa será obrigada a aspirar trabalhadores do "Terceiro Mundo", e não apenas os intelectuais elegantes da informática, mas todos os trabalhadores, sem os quais a mecânica ficaria bloqueada: os "baby boomers" irão logo aposentar-se: será então preciso importar mão-de-obra, tanto para fazer funcionar as fábricas quanto para pagar as aposentadorias dos antigos "baby boomers".
A ONU diz que, daqui até o ano 2025, a Europa terá necessidade de 160 milhões de imigrantes!
Ante este quadro, podemos fazer duas observações: 1) Houve uma reviravolta maligna: a direita", visceralmente hostil aos estrangeiros, converteu-se de repente à imigração , enquanto a "esquerda", durante tanto tempo "terceiro-mundista", reforça suas posições "nacionalistas" e quer manter filtros nas fronteiras.
2) Os europeus sonham primeiramente com especialistas indianos em informática. Uma bela sequência histórico-cultural: a Índia inventou o número "zero", sem o qual a matemática não teria podido absolutamente se desenvolver. Ao mesmo tempo, é um país de alta filosofia, habilíssimo no manejo das abstrações. Resultado: É na Índia - afirma-se - que se devem recrutar os mais bem dotados especialistas em informática.





