Maringá - Parece coisa de ficção científica - um eletrodo implantado no cérebro, que substitui parte das funções do órgão. Mas, o que supostamente poderia ser visto somente em filmes, já é realidade, e bem perto de nós. Uma cirurgia chamada estimulação cerebral profunda (deep brain stimulation, DBS, em inglês) é a última alternativa para pacientes que sofrem de doença de Parkinson, dor crônica e depressão refratária. Em Maringá, pelo menos 30 pacientes já se submeteram ao procedimento.

O neurocirurgião Helvercio Fernando Polsaque Alves, especialista neste tipo de cirurgia, explica que o objetivo do eletrodo é fornecer - e, em alguns casos, inibir - estimulação elétrica ao cérebro. É basicamente essa função elétrica, em conjunto com a química, que faz o órgão funcionar de maneira saudável e comandar todo o organismo.

No entanto, não é possível falar em cura das doenças, mas em melhora da qualidade de vida. ''E o procedimento só é indicado quando todas as outras terapias falharam. Antes (de chegar à cirurgia) é preciso obedecer todos os protocolos de tratamento'', ressalta.

No caso do parkinsionismo, explica o médico, um dos aspectos mais observados em pacientes com a doença é a degeneração de uma área do cérebro onde é produzida a dopamina, responsável pelo humor, pelo comportamento, e pelo movimento do corpo. A doença neurodegenerativa causa, entre outros problemas, tremor, rigidez, dificuldade ou falta de movimento, e alterações posturais. Entre as causas, ainda não totalmente definidas pela ciência, estão alterações cromossômicas - ''há pelo menos 13 genes envolvidos'', e ambientais - ''intoxicações por agrotóxicos e metais pesados podem levar ao parkinsionismo, mas não há nada definitivo''.

As medicações utilizadas para o tratamento da doença agem repondo a substância ou potencializando sua produção, e funcionam, segundo Alves, ''em 95% dos pacientes''. Mesmo assim, ainda é possível haver manifestações que vão impedir uma vida normal, o que pode levar o paciente à indicação cirúrgica.

Como é o balanço entre os estímulos elétricos e os químicos que levam as células a secretarem substâncias no cérebro, o papel do eletrodo é justamente recuperar esse equilíbrio perdido. A área onde os eletrodos serão implantados - normalmente dois com quatro polos cada um - é escolhida de acordo com o paciente e sua patologia.

Aos eletrodos ficam ligados cabos extensores, por baixo da pele, que chegam até um marcapasso instalado na região do peito. É através desse marcapasso que se faz a melhor programação para o paciente, de estímulo ou inibição elétrica. ''O cérebro ganha uma nova conformação. O eletrodo dá função a uma área que não funcionava''.

A primeira parte da cirurgia é feita com o paciente acordado, e apenas com anestesia local. Isso é importante para que o cirurgião possa fazer testes. Em um dos vídeos de cirurgia mostrados pelo médico, por exemplo, quando há o estímulo, o paciente consegue voltar a fechar e abrir as mãos com força, impossível antes por conta da rigidez. Em outro, o paciente para imediatamente de tremer.

Antes desse tipo de equipamento, o que se fazia era uma cirurgia chamada de ablativa, em que se lesionava a parte do cérebro onde era necessário reduzir o estímulo elétrico. O problema é que o parkinsionismo é progressivo, e o cérebro um órgão que acha outros caminhos para os estímulos, voltando a piorar a condição do paciente. ''Com os eletrodos, se o paciente piora, é possível reprogramar o estímulo''.

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