Implante devolve audição
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domingo, 29 de outubro de 2006
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Foi durante uma epidemia de meningite que assolou o Brasil, no ano de 1973, que o mineiro Roner Dawson contraiu a doença e perdeu a audição. O impacto maior para o, então, garoto de 11 anos foi na vida social. ''Minha perda foi profunda e bilateral. Eu era um adolescente e tive dificuldades de me relacionar com as pessoas, porque a sociedade da época não estava preparada para lidar com surdos, nem minha família, que insistia em negar minha surdez e pedia para que eu me esforçasse para ser ouvinte'', relembra o analista de sistemas, agora com 44 anos.
Seis meses depois, Roner começou a usar aparelho auditivo convencional e assim pode retornar à escola, embora permitisse que ele tivesse apenas 13% da audição. ''Sem leitura labial eu não compreendia nada. Eu só ouvia ruídos e sons graves. Como eu sou um surdo pós-lingual, a escola não foi um problema porque eu mergulhei na leitura. Os livros eram meus amigos'', conta ele, que cursou administração, é casado e tem quatro filhos. ''O problema é que as pessoas me viam como deficiente e como consequência eu me isolava delas'', completa ele, acrescentando que sua história de vida é ainda mais profunda.
Vasculhando a Internet em busca de um aparelho auditivo mais potente, Roner Dawson acabou descobrindo a existência do implante coclear, em 1999. ''As cócleas são os órgãos internos responsáveis pela audição. As minhas foram danificadas pela meningite e pelos remédios atóxicos do tratamento. Por mais que eu usasse um aparelho convencional mais potente, não iria adiantar, porque não se tratava apenas de aumentar o volume'', justifica. Ele conta que foi à Flórida fazer o implante, naquele ano, apesar de se informar posteriormente que no Brasil já existia o procedimento cirúrgico em Bauru, São Paulo.
O analista, que mora em Americana (SP), passou dois meses no Exterior para fazer exames, se recuperar da cirurgia e se acostumar ao novo aparelho, constituído por duas partes, interna e externa. Através de uma cirurgia foi colocado na cóclea de Roner um fio com 22 eletrodos e embaixo da pele um chip eletrônico. Já na parte externa fica o microfone que capta o som, um processador que transforma o sinal mecânico em elétrico e uma antena que capta o som e que, por sua vez, envia para o chip eletrônico que decodifica e estimula eletricamente a cóclea. A transmissão da parte externa para interna é feita por radiofrequência. Pura tecnologia.
''Eu tenho a sensação sonora. O som que eu ouço é sintético e robotizado e não tem atraso algum. Uma vez por ano eu faço uma reprogramação do processador do som'', detalha. Depois de 26 anos, o analista de sistemas teve uma mudança radical na qualidade de vida, melhoria da auto-estima e da produtividade no trabalho. ''Passei a atender telefone, participar de teleconferências e o mundo da música novamente se abriu para mim, já que ouço todas as nuances dos sons agudos e graves'', diz ele.
Presidente da Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuário de Implante Coclear (Adap), Dawson conta que assim que se recuperou, uma amiga colocou o Bolero de Ravel para ele ouvir. ''Antes eu já curtia, mas só escutava a parte grave. Depois que passei a ouvir completo, com os violinos, é claro que eu chorei e a emoção foi intensa.'' Ele que viaja pelo País com a missão de divulgar e mostrar os benefícios do implante coclear confessa: ''Emoção maior foi voltar a ouvir a simplicidade do cantar dos passarinhos.''


