São Paulo, 25 (AE) - Permanece o impasse a respeito da próxima negociação mundial de comércio. Europeus, norte-americanos, emergentes e japoneses continuam sem acordo sobre o que discutir na Rodada do Milênio, com lançamento previsto para o fim de novembro/início de dezembro em Seattle, nos Estados Unidos. Reunidos por dois dias na cidade suíça de Lausanne, diplomatas de 25 das principais economias, autodenominados "amigos da rodada", tentam desde hoje criar uma base para determinar o alcance das novas negociações. Hoje houve apenas a reafirmação de posições. O chanceler brasileiro, embaixador Luiz Felipe Lampreia, reiterou o interesse brasileiro na Rodada do Milênio e indicou, mais uma vez, as duas prioridades do País: 1) liberalização do comércio de produtos agrícolas; 2) regras para disciplinar medidas antidumping e evitar seu abuso. O secretário de Relações Econômicas Internacionais da Argentina, embaixador Jorge Campbell, foi mais enfático: sem a discussão do comércio agrícola, pode-se até renunciar à rodada.
As discussões devem continuar pelo menos até o almoço de amanhã. O chanceler Lampreia está escalado para abrir os debates
com a indicação do temário, missão desempenhada hoje pelo representante coreano. Um dos objetivos do encontro seria a preparação de um esboço, pelo menos, de uma declaração ministerial para o lançamento da rodada. O documento produzido nas últimas semanas, na sede da Organização Mundial do Comércio, em Genebra, é considerado inaproveitável, por causa do número de questões abertas.
Já estão previstas, no entanto, conversações particulares entre europeus e norte-americanos, para tentar dar um rumo à reunião de Seattle. Na quarta-feira, o presidente da Comissão Européia, o italiano Romano Prodi, e o encarregado de assuntos comerciais, o francês Pascal Lamy, deverão encontrar-se com o presidente Bill Clinton e a principal negociadora comercial norte-americana, Charlene Barshefsky, em Washington.
Hoje, Barshefsky e Lamy reexpuseram em Lausanne as pretensões de norte-americanos e europeus. Segundo a negociadora dos Estados Unidos, seu país defende a discussão da agricultura (principalmente dos subsídios à exportação, de tarifas industriais, de serviços e de uma série de temas classificados como "sociais", como proteção do ambiente, questões trabalhistas e formas de participação das organizações não-governamentais em atividades da OMC. No caso da indústria, os norte-americanos vêm defendendo a liberalização comercial acelerada de alguns setores, como brinquedos, químicos e produtos florestais.
O governo brasileiro declara-se interessado na questão ambiental. Os diplomatas recordam os compromissos assumidos na Eco 92, celebrada no Rio de Janeiro. A discussão de temas trabalhistas é classificada, no entanto, como inaceitável. Isso é apenas pretexto para protecionismo, segundo a diplomacia brasileira, e ninguém provou o contrário, segundo Lampreia.
Lamy reiterou a pauta defendida pela União Européia, descrita por outras delegações como árvore de Natal: política de concorrência, serviços, investimentos e compras governamentais, entre outros temas, além daqueles herdados da Rodada Uruguai, encerrada em 1994, e obrigatoriamente incluídos na Rodada do Milênio.
Os europeus continuam, porém, pouco dispostos a assumir grandes compromissos em relação ao comércio agrícola. Segundo Lamy, a idéia é restringir a negociação aos termos do artigo 20 do Acordo Agrícola incluído na Rodada Uruguai. Esse artigo define a liberalização como um processo contínuo e de longo prazo e sugere levar-se em consideração quatro pontos: 1) a experiência da redução de barreiras até a data de início da nova negociação, 2) os efeitos dos compromissos de liberalização no comércio mundial de produtos agrícolas, 3) as "preocupações não comerciais", o tratamento especial para países em desenvolvimento e objetivos de justiça e 4) outros compromissos necessários para alcançar os objetivos de longo prazo. Dificilmente um quadro de referências poderia ser mais vago e menos ambicioso, do ponto de vista de países como o Brasil e a Argentina.

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