Dados do Serviço de Naturalização e Imigração (INS, órgão do Departamento de Justiça dos EUA) revelam que nunca tantos brasileiros optaram pela cidadania americana como nos primeiros três anos do governo Fernando Henrique Cardoso.
Do início de 1995 a outubro de 1997, cerca de 6.800 pessoas trocaram de vez o Brasil pelos Estados Unidos, prestando juramento de fidelidade à bandeira americana.
Em comparação, apenas 4.864 fizeram o mesmo num período bem maior e mais turbulento da história recente, entre 1989 e 1994, dos governos Sarney, Collor e Itamar.
Os números definitivos do triênio 95/97, que poderão ultrapassar 7 mil, estarão no Anuário Estatístico de 1997 do INS, ainda sem data para ser publicado, por atrasos da burocracia local. O total até agora computado foi antecipado para a AE, ontem, em Washington, na sede do INS. Os dados de 1998 só serão conhecidos no próximo ano.
O relatório mostra também números recordes para pedidos de asilo e na deportação de brasileiros criminosos ou ilegais.
Em 1997, 191 brasileiros ganharam cidadania dizendo-se vítimas de alguma mazela do Terceiro Mundo.
Novas leis de imigração, mais duras, expulsaram quase um brasileiro por dia do ‘‘paraíso’’ - de outubro a 31 de março, 140 foram chutados, 55 deles por crimes cometidos no Brasil ou por envolvimento com drogas nos EUA.
Os dados principais são relativos ao ‘‘fiscal year 97’’, o ano fiscal de 1997 (o sistema público local usa um calendário que vai de primeiro de outubro de um ano a 30 de setembro do seguinte).
Segundo os dados, os naturalizados foram 1.278 em 95. Em 96, 2.680. A conta parcial de 1997 é de 2.840 casos já concedidos - o ano ainda está sendo contabilizado, podendo elevar o total do triênio a pouco mais de 7.000.
O INS registrou a primeira grande aparição dos brasileiros no radar de suas estatísticas em 1994, quando foi rompida a barreira das mil naturalizações anuais, com 1.342 casos. Em 95, o número baixou levemente, para 1.278, mas explodiu em 96, para 2.680, uma variação de mais de 100%.
O total de deportados entre outubro de 1996 (início do ano fiscal de 1997) e 31 de março de 1998 (no caso, um item já antecipado) foi de 458. Apenas em 1997, os americanos tinham deportado o número recorde de 318 - total surpreendente e até hoje desconhecido pelo Itamaraty, quase três vezes superior ao de 1996, apenas 117.
Outros dados mostram também que os brasileiros estão descobrindo um jeitinho para obter cidadania americana, pedindo asilo político por razões econômicas ou alegando repressão à liberdade sexual: foram 1.380 casos em 1996, 1.020 em 1997.
No último ano, o governo americano garantiu asilo a 191 deles, em duas levas. Foram 71 pessoas através do INS e 120 por sentenças das cortes de imigração. Estas, ainda estão reanalisando outros 69 pedidos pendentes. Cerca de 700 casos foram julgados em 98, mas seus resultados são desconhecidos.
Os casos perante as cortes, integrantes do judiciário, são diferentes dos pedidos ao INS, uma instância do poder executivo. As audiências dos casos de asilo são sempre secretas, jamais tendo seus casos abertos ao público, mesmo depois da sentença.
As mesmas cortes que concederam 120 asilos, negaram 37 e encerraram 73 casos, em 1997. No INS, dos 1020 pedidos tramitando, um dos poucos conhecidos é o do ex-marinheiro Flávio Alves, ameaçado de morte no Brasil por ter escrito um livro contando suas experiências gays na Marinha.
O caminho para se conseguir o asilo é ter um bom advogado americano, com honorários na faixa dos US$ 10 mil. Por esse dinheiro, mais as despesas, ele vai escolher uma corte longe das metrópoles, onde os casos têm julgamento mais rápido e juízes simpáticos aos dramas do Terceiro Mundo.
Os casos de asilo por razões econômicas são relativamente fáceis de documentar. O candidatos levam às cortes fotos de favelas e de familiares doentes, dando depoimentos dramáticos da vida na miséria - tudo amparado em amplo noticiário de jornais americanos sobre as condições de vida no Brasil.
Um caso típico de asilo político concedido com base na repressão sexual, citado como exemplo pelo Itamaraty, ocorreu no Texas, no ano passado. Uma brasileira, detida por agentes da imigração cruzando a fronteira do México sem documentos, virou o jogo na hora: pediu asilo alegando que no Brasil sofria discriminação por ser lésbica. Após rápido processo, um juiz lhe garantiu asilo. Hoje, ela vive em Dallas.

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