A situação dos imigrantes que vivem na região de Londrina está no centro das discussões de entidades responsáveis pelo atendimento a essa população. Uma das iniciativas em debate é a criação de um conselho ou comitê regionalizado para elaborar ações e políticas públicas voltadas aos estrangeiros. A intenção é fortalecer e institucionalizar o Grupo de Trabalho (GT) sobre Imigração em Londrina, para que ele tenha um peso maior diante dos órgãos públicos. As discussões fazem parte das atividades da 31ª Semana do Migrante, que ocorre até 19 de junho.
Criado em 2013, o grupo de trabalho conta com a participação de representantes de entidades como Ordem do Advogados do Brasil (OAB), Ministério Público, universidades e Cáritas Arquidiocesana de Londrina. A estimativa da Cáritas é que a região de Londrina abrigue em torno de 2 mil imigrantes haitianos e mais um número expressivo de pessoas de outras nacionalidades.
Não existe, no entanto, um censo dessa população. "A proposta é trazer as universidade para que nos ajudem no mapeamento desses imigrantes. Hoje, eles estão invisíveis diante da sociedade e dos órgãos públicos, que não percebem essa pessoa como um sujeito de direto", afirmou Márcia Ponce, coordenadora executiva da Cáritas Arquidiocesana de Londrina.
As informações que se tem do perfil do imigrante é que são pessoas que chega à região com contato de algum conhecido ou de parentes. "Eles vêm para ficar com essas pessoas. Não temos uma demanda muito forte nos abrigos. Mas precisamos avançar no acolhimento institucional", alertou.
Os haitianos e bengaleses são maioria, mas ainda há uma população grande de angolanos, que vieram para estudar nas universidades e passam por dificuldades financeiras, além de imigrantes da Argélia, Senegal, Índia, entre outros países.
A crise econômica do País tem afetado os imigrantes, que também têm enfrentado uma onda de demissões. A coordenadora da Cáritas afirma que há casos de empresas, principalmente empreiteiras, que não estão mais contratando estrangeiros. "Esse é um dos desafios que enfrentamos. Se ele não pode ser contratado por uma empresa convencional, vai ficar à margem e mais vulnerável à exploração e ao trabalho escravo", comentou Márcia.
De acordo com o presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB, Paulo Magno Cícero Leite, a exploração da mão de obra e o trabalho escravo são as principais violações de direitos sofridas pelos estrangeiros. "Como eles têm dificuldades para se legalizar no País, os empregadores usam desse artifício para dispor de mão de obra barata. Mas também há violações do acesso à saúde, educação, assistência", disse Leite. Para ele, "é preciso discutir e evoluir muito para receber os imigrantes". "É preciso um plano de governo e incentivos", cobrou. Essas questões foram discutidas durante uma audiência pública, realizada ontem, na Câmara de Vereadores.

PESQUISA
A coordenadora do Observatório das Imigrações da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Cláudia Siqueira Baltar, está iniciando um levantamento sobre o perfil da imigração na região. A professora fez um trabalho semelhante na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com foco na imigração contemporânea.
Segundo ela, esse movimento migratório ganhou força a partir do fim de 2010 e início de 2011. Mas como as pesquisas populacionais são baseadas em dados do Censo de 2010, há poucas informações. "Como não temos tantas informações dos dados, a parceria com a Cáritas é um ponto de partida para o acesso a essa população", disse. A pesquisadora também tem utilizado informações dos Ministérios do Trabalho e da Justiça, mas não são dados exatos da região de Londrina.
O levantamento pretende traçar um panorama do impacto da imigração nos serviços públicos e no mercado de trabalho. "Essas informações de quantos são, onde estão e como chegam aqui são importantes para orientar outras ações de atendimento a essa população", disse.
Cláudia enfatiza que o trabalho de institucionalizar o grupo de trabalho é um passo para tirar da invisibilidade a presença do imigrante. "É preciso pensar em políticas públicas, reorganizar os recursos e envolver os estrangeiros que já estão aqui e os novos que estão chegando. O desafio é ter esse olhar. Pensar que você tem um cobertor cada vez menor e mais gente para cobrir."

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