Igreja tenta impedir imagem da Virgem em desfile
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de fevereiro de 2000
Por Roldão Arruda 
São Paulo, 23 (AE) - A Igreja Católica vai tentar impedir que a escola de samba paulista águia de Ouro leve para o sambódromo uma imagem da Virgem Maria. Na opinião do presidente regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Fernando Figueiredo, trata-se de uma "ofensa ao sentimento religioso de todo o povo católico".
Amanhã, um representante da Arquidiocese de São Paulo fará uma visita à escola, levando um apelo a seus diretores, para que renunciem ao projeto de levar a Virgem ao desfile carnavalesco. Se não for atendida, a arquidiocese, dirigida por d. Cláudio Hummes, poderá recorrer à Justiça.
"A arquidiocese sabe que pode usar o inciso 6º do artigo 5º da Constituição Brasileira, que exige respeito à liberdade de culto e proteção aos símbolos e locais religiosos", assinala nota divulgada hoje pelo encarregado do Vicariato da Comunicação da Arquidiocese, monsenhor Arnaldo Beltrami.
Para o carnavalesco da escola, Paulo Fuhro, a reação da cúpula da Igreja é despropositada. "Vamos exaltar os missionários jesuítas, que foram os grandes defensores dos indígenas, e mostrar que Nossa Senhora sempre acolheu os oprimidos", disse.
"Os bispos deveriam vir à escola e ver o que estamos preparando, antes de tentar impedir nossa manifestação, como se fossem os dominicanos da Santa Inquisição."
O enredo da escola, criado por Fuhro, chama-se À Imagem e Semelhança de Deus - Terra Brasilis. O objeto da discórdia é a reprodução da obra artística La Pietá, esculpida por Michelangelo Buonarotti (1475-1564). Na concepção do carnavalesco, porém, em vez de segurar nos braços o filho morto, como no original, que se encontra na Basílica de São Pedro, em Roma, a Virgem acolhe um índio morto - com os mesmos sinais da crucificação nas mãos e nos pés.
"A intenção é mostrar o martírio dos índios", diz o carnavalesco. "No Brasil, a cultura índigena foi a grande crucificada."
O carnavalesco estudou durante dez anos num seminário católico
no Rio Grande do Sul, e demonstra conhecer bem a história e a doutrina da Igreja. Ele lembra que as atuais propostas de evangelização católica insistem na necessidade de respeito à cultura de cada povo, a chamada inculturação, em vez da imposição da cultura européia - como ocorreu no passado.
"Não consigo compreender por qual motivo os bispos tentam impedir que coloquemos um índio nos braços de Nossa Senhora."
O carnavalesco também lembrou que a Virgem Maria sempre deu preferência aos oprimidos. "Bernardette, para quem ela apareceu em 1856, era muito simples e tinha epilepsia", citou. "Em Fátima, em 1913, as três crianças que a viram eram pobres e analfabetas e a Virgem da Guadalupe tem a tez morena, como uma índia."
Para d. Fernando, que é doutorado em teologia, o problema não está no índio e sim na idéia de levar uma imagem da Virgem para o carnaval. Na condição de presidente da Sul 1 da CNBB, que congrega os bispos de São Paulo, ele disse à Agência Estado: "Imagens que representam objetos de culto devem ser respeitadas por todos; foram feitas para a devoção, para os altares, e não para carros alegóricos de desfiles carnavalescos."
O bispo também disse que respeita os festejos populares, como o carnaval. Mas considera uma ofensa levar para a festa uma imagem destinada à devoção. "Não são coisas do mesmo gênero", afirmou.


