‘‘É um documento histórico’’, disse o cardeal d. Serafim Fernandes de Araújo, arcebispo de Belo Horizonte, ao comentar nesta semana a encíclica Razão e Fé, do papa João Paulo II, divulgada na quinta-feira, no aniversário de 20 anos do seu pontificado. ‘‘O papa, como um grande filósofo, nos diz que a grande resposta da vida é a verdade e o objetivo da ciência e da fé é buscá-la.’’
Para o coordenador da Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Luiz Demétrio Valentini, a encíclica retomou a antiga tradição da Igreja de defesa da fé e da razão como pontos convergentes. ‘‘Se não fizermos uso da razão para disciplinar a fé, viveremos em confusão inclusive religiosa, como mostra o fanatismo.’’
O monge beneditino d. Estêvão Bittencourt, do Mosteiro de São Bento, no Rio, disse que a intenção do papa foi restaurar a confiança do homem moderno na própria inteligência, que estaria sendo desacreditada por certas escolas contemporâneas da filosofia. ‘‘O papa é contrário a qualquer forma de fideísmo, que rejeita todo o apoio da razão, mas também se opõe ao racionalismo que só aceita o que a razão pode demonstrar’’, afirmou.
Na opinião do teólogo João Batista Libânio, da Faculdade de Teologia dos Jesuítas de Belo Horizonte, o papa abordou um tema extremamente sério, com o qual a Igreja se defronta desde que nasceu, 20 séculos atrás. ‘‘Desde que os primeiros cristãos, de origem semita, se defrontaram com a cultura grega, então predominante, tiveram de encontrar razões para sua fé.’’
Na idade moderna, segundo Libânio, fé e razão foram divididas. ‘‘O grande projeto da modernidade é a emancipação total, diante da natureza, das tradições, dos dogmas’’, disse. ‘‘Isso começou lá atrás, com a astronomia, e hoje chega à questão mais íntima, da vida, por meio das discussões sobre genética.’’
Ele afirma que, para o papa, se a ciência prescindir da fé, corre o risco de ameaçar a própria humanidade. E se a fé prescindir da ciência, pode cair num clima de ilusão. ‘‘É ao que estamos assistindo, com o recrudescimento das crenças em duendes, gnomos, anjos.’’ O objetivo do papa, na opinião do teólogo, é propor um diálogo crítico e construtivo entre fé e razão.

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