Igreja pode mudar em 2000
Roldão Arruda
Agência Estado
Dificilmente o cardeal Sales permanecerá à frente da arquidiocese além do ano 2000. Dos outros quatro cardeais na ativa, dois acabam de completar 75 anos e já apresentaram ao papa o pedido formal de afastamento de suas funções. São dom Aloísio Lorscheider, arcebispo de Aparecida, que fez aniversário em outubro, e dom Serafim Fernandes de Araújo, em agosto.
De acordo com o Código Canônico, que regula a vida interna da Igreja, deveria ter-se afastado quando completou 75 anos. Mas o papa, com cujas idéias o cardeal mostra grande afinidade, preferiu mantê-lo no cargo até as comemorações do chamado Ano do Jubileu ou ano Santo, que começa no Natal.
Entre eles o que mais desperta atenções é o cardeal Eugênio de Araújo Sales, arcebispo do Rio e um dos homens mais influentes da Igreja no Brasil durante o longo pontificado de João Paulo II. Ele completará 80 anos em novembro.
A cúpula da Igreja Católica no Brasil deverá passar por sensíveis mudanças a partir do próximo ano. O sinal mais emblemático disso será o afastamento de cardeais que já chegaram ou estão chegando à idade da aposentadoria. Pelas normas canônicas, todos os cinco cardeais que estão na ativa poderão ser afastados. Isso abrirá brechas para a escolha de nomes de sucessores que ajudarão a determinar os rumos do catolicismo brasileiro no início do próximo século.
Os dois cardeais que restam da lista chegarão à idade limite no segundo semestre do ano 2000 dom José Freire Falcão, arcebispo de Brasília, e dom Lucas Moreira Neves, que atualmente trabalha em Roma, como prefeito da poderosa Congregação para os Bispos.
Além desses cinco cardeias na ativa, o Brasil tem um sexto, já aposentado: dom Paulo Evaristo Arns. Mais liberal do ponto de vista político que dom Eugênio, ele foi afastado do comando da Arquidiocese de São Paulo em 1998, aos 76 anos, e substituído por dom Cláudio Hummes, que é mais afinado com Roma.
Os cardeais têm uma dupla função. Ajudam o pontífice a comandar a Igreja e integram o chamado colégio cardinalício, que desde 1059 tem a função de escolher o novo papa, quando o trono de Pedro fica vago.
Eles são escolhidos entre pessoas de confiança do papa, independentemente do posto que têm ou do lugar em que atuam. Existem, porém, as chamadas sedes cardinalícias locais que só podem ser dirigidos por um cardeal. No Brasil existem quatro: as arquidioceses do Rio, São Paulo, Salvador e Brasília.
Quem é indicado para dirigir essas províncias eclesiásticas quase automaticamente recebe a púrpura cardinalícia. Só não é automático porque o título deve ser conferido numa reunião especial de cardeais, chamada consistório, que o papa convoca de tempos em tempos.
O arcebispo dom Cláudio Hummes, o sucessor de dom Paulo, deverá receber o título de cardeal no próximo consistório. O mesmo deverá acontecer com dom Geraldo Majella Agnelo, ex-arcebispo de Londrina, que substituiu dom Lucas Moreira Neves na Arquidiocese de Salvador, quando este foi chamado para trabalhar em Roma.
A sede cardinalícia mais importante cuja sucessão ainda está aberta é a do Rio. É por causa disso que nos bastidores católicos se especula principalmente a respeito desse assunto. Além de ficar à frente de uma das maiores e mais ricas arquidioceses do País, o substituto de dom Eugênio receberá o título de cardeal.





