SÃO PAULO - Poucos assuntos causam tantas reações na Igreja Católica quanto o aborto. O papa João Paulo II tem feito campanha sistemática contra a interrupção forçada da gravidez, condenado-a em qualquer situação. Ainda assim, a atitude do arcebispo de Maringá (PR), que prometeu excomungar um juiz e um promotor - e outras pessoas - por terem autorizado o aborto de um feto sem cérebro, está sendo considerada exagerada.
Em São Paulo, um porta-voz da arquidiocese, padre Fernando Altemayer, disse que a excomunhão é uma ferramenta ultrapassada do direito canônico. ‘‘Na minha opinião, teria sido melhor promover uma reunião com o juiz e o promotor para debater o assunto’’, disse.
A atitude do bispo d. Jaime Luiz Coelho também provocou reações no meio médico. ‘‘Não acho que o caso tenha a gravidade que o arcebispo tentou dar a ele’’, disse em São Paulo o médico Thomaz Cardoso de Almeida. Ele é católico e ocupa o cargo de diretor técnico do Hospital Municipal do Jabaquara.
‘‘Em vez de se preocupar com juízes, promotores, médicos e mães, o arcebispo deveria propor a excomunhão do estuprador, que vilipendia o sacrário do corpo humano’’, disse Almeida.
Segundo o médico, está aumentando em todo o país o número de sentenças judiciais favoráveis ao aborto em casos como o registrado em Maringá, onde se verificou que o feto não tem nenhuma chance de sobreviver ao parto. A informação é confirmada pelo diretor do Instituto de Medicina Fetal de São Paulo, Thomaz Gollop. ‘‘Com o avanço das técnicas médicas, o infortúnio de uma anomalia grave pode ser detectado com muita antecedência’’, explicou. No Congresso, a deputada Marta Suplicy ten um projeto que legaliza o aborto em casos de anomalias graves e incuráveis.
Delito A excomunhão é uma pena aplicada a católicos que tenham cometido algum delito ou falta muito grave. Está inscrita no Código de Direito Canônico e implica no afastamento da pessoa de todos os sacramentos da Igreja. Ela não pode sequer receber a extrema-unção e ter um enterro cristão.
Como a Igreja condena o aborto, a pessoa que o faz já está praticamente excomungada. No caso de Maringá, o bispo decidiu tornar pública a excomunhão provavelmente com um objetivo pedagógico: quer evitar que outras pessoas façam o mesmo. A pena pode ser levantada se o sujeito se arrepender.

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