Salvador, 23 (AE) - Nem todo padre pretende soltar a voz ou fazer aeróbica no altar, a exemplo de Marcelo Rossi. Mas o interesse pelo sucesso do padre Marcelo indica, sobretudo, a busca de novos caminhos para fazer frente ao que realmente incomoda os padres católicos: o avanço avassalador das igrejas evangélicas de inspiração pentecostal e a apatia dos fiéis católicos.
De um total de 300 inscritos, 200 eram padres no 4.º Encontro Nacional de Marketing Católico, encerrado sexta-feira, em Salvador, Bahia. O número surpreendeu os organizadores, que afirmam que leigos e voluntários das paróquias sempre foram o público preferencial desse tipo de encontro. "O fato de 2/3 dos participantes serem padres é revelador dos novos tempos", disse o sacerdote Lício Vale, secretário do Instituto Brasileiro de Marketing Católico, que organizou o evento.
Na luta pela conquista de fiéis, vale tudo - do uso de brindes para levantar fundos para as paróquias, mala-direta, utilização da Internet e até mesmo a vestimenta diferenciada. "Alguém já viu um pastor americano sem gravata e sem terno?", perguntou o publicitário Mauro Salles, ex-coroinha, ao defender, em sua palestra, que os padres tenham caracterização própria, diferenciando-se como "produto". O que significa dizer que a comunidade deve portar sinais claramente distintivos de sua condição, como o clergyman - terno (normalmente preto, marrom ou cinza) e camisa com colarinho especial, redondo, como o utilizado pelo padre Marcelo Rossi.
Para o sacerdote Wilde Ricardo Rocha, de 36 anos, que combina camisas coloridas com o colarinho redondo, é importante ter sinais distintivos numa época em que imperam os meios de comunicação audiovisual: "A veste sacerdotal tem um efeito forte sobre as pessoas". A maioria dos padres, porém, prefere usar roupas diferenciadas apenas durante as celebrações religiosas, prática que se difundiu a partir do Concílio Vaticano 2.º, reforçando a idéia de que o uso da batina poderia ser visto como elemento segregador. Com o pontificado de João Paulo II, porém, as coisas estão mudando. Há quem acredite que houve exageros na esteira do Concílio e está na hora corrigi-los.
"De cada 100 pessoas que se dizem católicas, no máximo 20 participam da vida da Igreja e um número ainda menor dá o testemunho do Evangelho no seu cotidiano", disse o padre Carlos Viol, de 30 anos, que atua em Montes Claros (MG).
Ordenado há apenas um ano e meio, Viol observou que os padres foram ao encontro de Salvador para aprender como usar técnicas de comunicação de maneira mais profissional, deixando de lado a improvisação característica das paróquias católicas. Ele defendeu esse caminho, mas ao mesmo tempo manifestou dúvidas e temores quanto aos exageros que podem ocorrer, como a mercantilização do sagrado, o tom mágico de algumas práticas sacramentais e a excessiva valorização dos meio, em detrimento da mensagem. "Não se deve perder de vista o significado de cada celebração", disse.
Sinal - Na opinião do padre Ricardo Rocha, a forte presença no encontro de marketing também poderia ser vista como sinal de busca de uma nova identidade para o clero brasileiro. "Temos de aprender a ser pastores eficientes, sem imaginar que somos super-homens", disse. "Também precisamos encontrar um meio-termo entre a atitude extremamente politizada que marcou o clero nos anos 70 e 80 e o pietismo exagerado que tende a surgir hoje."
Rocha acredita que clero brasileiro está diante de um desafio: definir sua identidade e modo de agir num mundo menos sacralizado e, apesar disso, com maior pluralismo religioso. "Estou certo que vamos tirar boas lições de momentos ruins."

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