Londrina - A chuva que assolou a região no último final de semana não se limitou a destruir casas, pontes, ruas. O intenso volume de água também desfez a antiga certeza, até então reinante entre os londrinenses, de que a cidade estava imune a enchentes e alagamentos em função dos seus muitos fundos de vale, que funcionam como drenos naturais. Pela primeira vez a população viu um de seus principais cartões-postais, o complexo de lagos Igapó, transbordar com tanta fúria, e se pôs em alerta: segundo especialistas, este tipo de ocorrência vai se tornar recorrente se providências não forem tomadas para conter os crimes ambientais.
A grande quantidade de terra que tingiu os lagos de vermelho é um sinal de que os terrenos ao redor e ao longo da bacia não estão sendo protegidos como deveriam. A lama que escorre com as enxurradas vem provocando intenso assoreamento no Igapó, que em alguns pontos já não passa de um espelho d'água. ''Nestas condições, em que as galerias pluviais também se encontram entupidas de sedimentos, não há por onde a água escoar e, em casos de precipitações excepcionais, o nível sobe rapidamente, provocando a erosão marginal. A água não 'discute' com obstáculos, ela procura caminhos, sejam eles quais forem'', explica o professor de biogeografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Geraldo Terceiro Correa, que é doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais.
De acordo com o professor, a rápida urbanização, sem levar em consideração a topografia local e suas fragilidades, é um dos principais problemas. No caso do pool de lagos, os sedimentos vão fazendo seus estragos em efeito cascata. ''Como não há escoamento superficial e as galerias pluviais são pessimamente dimensionadas - talvez imaginadas apenas levando-se em consideração as chuvas médias - não há infiltração suficiente e o resultado é o transbordamento'', alerta.
A falta de matas ciliares nos fundos de vale e determinados trechos da Bacia do Cambezinho são outra fonte de preocupação. ''A função das matas que margeiam os rios é ser um filtro físico, uma espécie de anteparo para que a água chegue com menos energia e provoque menos estragos.'' Correa defende que fatores como estes, somados à impermeabilização decorrente da intensa expansão urbana, tendem a tornar comuns catástrofes como a dos últimos dias. ''Esta era uma situação previsível'', afirma.
A mesma opinião tem o diretor da ONG Patrulha das Águas, João Batista Moreira Souza, que há anos alerta para o assoreamento e outros crimes ambientais na Bacia do Cambezinho. ''As pessoas vão fazendo novas construções, construindo ruas, impermeabilizando cada vez mais seus quintais, obstruindo bueiros, sem se preocupar com as consequências.''
O secretário municipal do Ambiente, José Faraco, informou que o município pretende intensificar a fiscalização. Só na última sexta-feira três empresas localizadas nas proximidades do Igapó foram notificadas por manterem obras sem muros de contenção, uma das principais causas de assoreamento do lago. Anunciou ainda que a administração municipal pretende investir, no futuro, R$ 40 milhões nas obras de desassoreamento do lago.

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Igapó pode voltar a transbordar
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