Londrina - Aos 53 anos, Mariana (*) recebeu uma notícia que mudou sua vida. Internada para tratar de uma pneumonia, a dona de casa descobriu ser portadora do HIV. Os exames apontaram que o vírus já havia se manifestado em seu organismo. ''Quando o médico me contou, tive dificuldade para acreditar. Nunca imaginei passar por isso, principalmente nessa altura da vida. Admito que fiquei apavorada e que senti medo de morrer'', relata a mulher de 59 anos.
A indignação dela foi maior porque seus relacionamentos sempre foram estáveis. ''Fui casada por 13 anos e descobri que foi meu ex-marido que me passou a doença. Não sabia que ele era soropositivo. Ele nunca me contou nada'', diz. Há seis anos ela vive com outro homem. ''Além dos médicos, ele é a única pessoa que sabe do meu problema. Tive sorte porque ele me apoiou muito. Não tive coragem nem de contar para os meus filhos. Quero poupá-los porque ainda existe muito preconceito'', conta a dona de casa, que utiliza o coquetel antiaids e realiza uma série de exames a cada seis meses. Com isso, consegue levar uma vida relativamente normal.
Madalena(*), uma viúva de 59 anos, enfrenta uma situação parecida. Ela convive com o HIV há oito anos. ''Tento levar uma vida normal e esquecer que tenho a doença'', diz, admitindo que nem sempre é possível. ''As pessoas falam demais, o preconceito e a falta de informação são grandes. Procuro ser discreta, mas optei por contar para a minha família. Meus filhos sempre foram a minha maior preocupação. Um deles ficou revoltado quando soube, mas hoje todos me apoiam'', afirma.
Ela conta que a mãe morreu sem saber da doença dela. ''O tabu é maior para as pessoas mais velhas. Para elas, aids é sinônimo de morte. Seria uma decepção'', argumenta. Madalena acredita ter contraído o vírus de um parceiro de 70 anos, já falecido. ''Me relacionei com ele durante um tempo e não usávamos camisinha. Somente depois descobri que ele era soropositivo'', lamenta.
Segundo a viúva, os idosos têm dificuldade de utilizar preservativo. ''O homem mais velho não tem o hábito e muitos não sabem nem colocar'', observa. Ela admite que mantém vida sexual ativa e que nem sempre revela para o parceiro que é soropositiva. ''A diferença é que uso camisinha em todas as relações'', pontua.
Os relatos refletem a situação enfrentada atualmente por milhares de idosos no Brasil. Apesar de a faixa etária mais atingida pela doença ser a de 25 a 49 anos, os casos confirmados em pessoas acima dos 60 anos aumentaram de 497 para 1.263 entre 1997 e 2007, segundo dados do Ministério da Saúde.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, entre 2006 e 2011 foram registrados 942 novas confirmações em pessoas entre 50 e 64 anos no Paraná. Na faixa etária que vai de 65 a 79, foram notificados 106 casos. E três situações foram confirmadas em idosos com mais de 80.
Em Londrina, segundo o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) da Secretaria de Saúde, entre 2005 e 2010 foram confirmados 72 novos casos em pessoas com idade entre 50 e 59 anos. Para se ter uma ideia, de 2000 a 2005, foram 53 novas confirmações na mesma faixa etária. E entre 1995 e 2000, o número de confirmações foi 21.
* Os nomes usados na reportagem são fictícios

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