Idioma tem 4 níveis de sofisticação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de junho de 1997
Cristine Pieske, 
de Curitiba
Quem quiser agradar o imperador terá de tomar cuidado para não errar no vocabulário. A aura de divindidade que sempre cercou os imperadores criou para eles uma forma de expressão diferente, que vai além da mudança nas formas de tratamento. Para dirigir-se ao imperador, não se pode usar o idioma japonês corriqueiro, falado nas ruas, nem mesmo a forma mais culta da língua, utilizada para as demais autoridades. É preciso saber os termos certos que compõem a gramática da corte para não ferir os ouvidos imperiais. Mais do que elegância, a versão da língua aceita na corte demarca, sobretudo, a divisão de classes sociais.
O idioma japonês é dividido em quatro níveis principais, que são utilizados de acordo com o status social do interlocutor ou com o tipo de assunto sobre o qual se fala. O primeiro deles, o mais coloquial de todos, é usado quando se fala de animais, plantas ou pessoas da família. É uma modalidade formada por palavras simples, sem nenhuma das terminações que emprestam um tom mais refinado à língua usada com a intenção de valorizar o interlocutor. O nível mais comum da língua é utilizado nas conversas entre amigos ou entre pessoas da mesma idade e que ocupam posições equivalentes dentro da sociedade.
Acima dessa está a modalidade culta da língua, usada para falar com pessoas mais velhas e também com pessoas com status superior. O nível máximo da língua, no qual até mesmo os verbos seguem uma conjugação diferenciada, é reservado apenas para o imperador e para o presidente da república. Todas as palavras recebem novos sons e as expressões são acrescentadas de novas palavras que demonstram respeito.
O famoso arigatô (obrigado), que costuma ser repetido por todos os brasileiros que tentam arranhar o idioma japonês, jamais deve ser usado para agradecer ao imperador. Como membro mais importante da sociedade japonesa, o imperador merece um obrigado mais pomposo. Para imperadores, presidentes e pessoas mais velhas - muito respeitadas na cultura oriental -, o simples obrigado transforma-se em Domo Arigatogozaimasu.
Além das palavras, há todo um glossário de regras de comportamento para ser posto em prática na presença do imperador. O cumprimento, por exemplo, deve ser feito sempre com a cabeça, e nunca com qualquer tipo de toque físico. Um aperto de mãos só pode ser dado se esta for a vontade do imperador - notando sempre que, neste caso, ele deve ser o primeiro a estender a mão. Roupas e acessórios na cor lilás também devem ser evitados, já que esta é a cor oficial da família imperial. O mesmo se aplica à flor de crisântemo de 16 pétalas - símbolo máximo dos imperadores, ilustrada sempre na cor dourada.
Um dos resquícios comportamentais antigos que foram adaptados no Japão atual é a proibição de fitar os olhos do imperador. Antigamente, quem o fizesse tinha sua cabeça cortada pelos samurais. Hoje, nas raras vezes em que aparece em público, o imperador pode ser olhado, mas o caminho percorrido por sua comitiva costuma ter, em algumas regiões do país, as janelas e cortinas cerradas. Pelo protocolo, nenhuma das cidades brasileiras que estão sendo visitadas pelo imperador está sendo obrigada a seguir a regra japonesa.


