TàQUIO (AE-AP) - Os invasores vieram do mar. Com sua avançada tecnologia e em número esmagador, eles rapidamente estabeleceram-se no novo mundo. O habitantes originais, tribos de caçadores-coletores, sucumbiram ou tiveram de fugir para outros lugares.
Esta história pode soar familiar, mas não se trata da conquista da América pelos europeus, mas o resultado de uma pesquisa arqueológica sobre o que teria acontecido na pré-história no Japão.
Esta visão controversa sobre o passado do Japão deveria chamar atenção neste país ávido por curiosidades históricas. Mas não foi o que aconteceu, pois a maioria dos japoneses jamais ouviu falar de tal teoria.
Isso acontece porque, enquanto os arqueólogos japoneses passaram a aceitar a visão de que seus ancestrais migraram do continente, a discussão mais popular continua a ser fiel á ideologia pré 2ª Guerra Mundial, pela qual os japoneses são racialmente distintos do restante da ásia. "Há uma lacuna nesta área", explica Hisao Baba, curador de antropologia do Museu Nacional de Ciência em Tóquio. "A arqueologia progrediu muito, mas a política tem dificultado o olhar crítico do público em relação ao seu próprio passado".
É claro que o Japão não é o único país a misturar história e política. Arqueólogos britânicos discutem a respeito da extensão de sua herança celta em relação à anglo-saxônica, e os norte-americanos só começaram a olhar seu passado sob a perspectiva de seus índios recentemente. Mas em poucos países a questão é encarada como no Japão.
O tema da origem toca no âmago da identidade japonesa. Por muito tempo eles se consideraram etnicamente únicos, o que tornou mais fácil a justificativa da ocupação militar japonesa aos vizinhos como Coréia e China no início do século.
Por muito tempo a arqueologia japonesa seguiu esta linha. Durante boa parte deste século, os arqueólogos japoneses disseram que os genes do seu povo estavam isolados desde a era glacial, ou seja, há mais de 20 mil anos. Confrontados com a evidência de que uma súbita mudança aconteceu no local cerca de 400 a.C. e que substituiu a milenar cultura de caçadores-coletores por uma sociedade que era capaz de cultivar arroz e forjar armas e ferramentas, os arqueólogos concluíram que houve uma "empréstimo" tecnológico dos povos do continente. Mas recentes análises dos formatos dos crânios mostrou que os agricultores que apareceram 2.400 anos atrás eram racialmente diferentes dos caçadores a quem eles substituíram.
Nos anos 80, novas pesquisas sobre o DNA recolhido de túmulos remanescentes revelaram resultados ainda mais surpreendentes: os primeiros habitantes tinham muito pouco em comum com os modernos japoneses, mas eram quase idênticos aos Ainu, um pequeno grupo nativo encontrado na ilha de Hokkaido, ao norte do país. A mesma análise também demonstrou que os japoneses atuais pertencem à mesma família genética dos coreanos e chineses.
Uma geração de jovens arqueólogos japoneses agora aceita que algum tipo de migração aconteceu e que as minorias étnicas, como os Ainu, são mais próximos dos habitantes originais do Japão. O debate entre os pesquisadores agora enfoca a quantidade de migrantes que chegou ao local e se eles deslocaram os nativos violentamente ou se integraram-se à comunidade pacificamente.
"Nós começamos a olhar este período da história mais imparcialmente a partir dos anos 70", diz Yoshinori Yasuda, professor de arqueologia do Centro Internacional de Pesquisas para Estudos Japoneses em Kioto.
O público permanece, em sua maioria, ignorante a respeito destes progressos, apesar do grande interesse popular pelo passado do Japão. Os jornais, que devotam boa parte de suas páginas aos achados arqueológicos, denominam qualquer local de exploração, independentemente da idade, como algo deixado por "nossos ancestrais". Os livros de escola continuam informando que a mais recente migração do continente para o Japão foi na era glacial, isso quando mencionam alguma influência externa. Até mesmo os museus, cujas exposições contam com a organização de arqueólogos, apresentam diagramas que mostram como os ancestrais caçadores evoluíram para os atuais assalariados japoneses.
Esta visão é tão amplamente aceita que quando o canal de televisão nacional NHK exibiu uma documentário, dois meses atrás
descrevendo algumas das recentes descobertas sobre o DNA da população nativa, foi imediatamente inundada por mais de 200 ligações telefônicas. "Muitos dos espectadores ficaram chocados ou surpresos", disse o porta-voz da NHK, Akiko Toda. "Alguns recusaram-se a acreditar nos resultados das pesquisas".
Arqueólogos têm tido dificuldades para explicar a novidade. Uma das razões, dizem eles, é que leva algum tempo para que as teorias acadêmicas conquistem a aceitação pública. Há também a resistência dos editores de livros didáticos em publicar idéias que ainda estão em discussão. Mas a raiz do problema, dizem eles
está na grande relutância entre os japoneses em aceitar que eles compartilham os mesmos genes que seus vizinhos coreanos e japoneses.
Esta postura vem do início deste século, quando o Japão estava construindo um império colonial na ásia. Nesta época, o país justificava sua dominação devido à sua superioridade cultural e racial. Até 1945 as crianças japonesas aprendiam na escola o mito de que o imperador era um descendente dos deuses e que seu povo vivia naquelas ilhas desde a criação do mundo.
Enquanto tais posturas podem estar finalmente sendo mudadas, permanece o tabu social, que os pesquisadores afirmam que é difícil de quebrar. "Eu fiquei com muito receio quando publiquei meu livro, pois não sabia que tipo de reação ele poderia causar", disse Satoshi Horai, professor da Universidade Graduada para Estudos Avançados, nas proximidades de Tóquio, que conduziu a pesquisa que liga o DNA dos japoneses ao dos coreanos e chineses. "Nada aconteceu até agora, mas isso pode significar que o público não leu o meu livro".

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