Uma idéia simples e inovadora que começou com U$ 27 conseguiu transformar a realidade social e ambiental de aproximadamente 30 milhões de pessoas em Bangladesh, um dos mais pobres países asiáticos que possui aproximadamente 150 milhões de habitantes numa área de 148 mil k2 - o que equivalente a 3/4 da extensão territorial do Paraná. O autor da façanha é o vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2006, Muhammad Yunus - que participou ontem do Fórum Internacional de Energias Renováveis, em Florianópolis.
Yunus é fundador do Grameen Bank, instituição bancária que introduziu o conceito de microcrédito solidário no mundo. Fundado há 31 anos, o Grameen já possui 2.500 filiais no país e conta com 7,5 milhões de correntistas. Os empréstimos, na média de U$ 140 (aproximadamente R$ 200), são pagos semanalmente e têm ajudado a criar milhares de pequenos negócios - entre criações de galinhas, fabricação de cestos e produtos de costura. Os clientes, na maior parte mulheres, não precisam apresentar garantias. Mesmo assim, o índice de inadimplência não chega a 1% dos U$ 500 milhões emprestados no ano passado. Todo lucro obtido é reinvestido no próprio banco.
O sucesso do negócio é tão grande que a instituição já possui uma subsidiária: o Grameen Energy, que já financiou a instalação de aquecedores solares em 100 mil residências de Bangladesh - país com 75% da população sem acesso à eletricidade. Além disso, a instituição vem financiando a produção de biogás nas aldeias e propriedades rurais - utilizando como matéria-prima o rejeito da criação do gado.
Em uma disputada entrevista à imprensa brasileira, Muhammad Yunus contou alguns casos curiosos. ''Teve uma mulher que utilizou o dinheiro para comprar um telefone celular, porque lá não tinha. Em pouco tempo, ela acabou virando a central telefônica da aldeia, todo mundo vinha até ela quando precisava usar''.
Crédito para mendigos
Ele disse também que o banco já criou uma 'linha de crédito' para mendigos. ''Começamos a procurá-los há quatro anos e dissemos: ao invés de pedir dinheiro de casa em casa, comecem a vender balas. De 100 mil mendigos, 10% já se transformaram em vendedores. Os outros 90%, agora são mendigos em meio período, numa hora eles pedem dinheiro, mas na outra eles vendem suas balas'', brincou.
A chave do sucesso, de acordo com o vencedor do Nobel da Paz, é dar o poder às mulheres e manter os políticos à distância. ''Nossos políticos continuam extremamente corruptos, somos considerado o pior país nesse quesito pela Transparência internacional. Mas os esforços combinados em educação, crédito e organização da sociedade já permitiu a redução da pobreza, de 80% da população para 40%, entre 1971 e 2000''.
De acordo com o criador do crédito solidário, os pequenos empréstimos sem garantia se baseiam num princípio moral e na ausência de alternativas para população de baixa renda . De acordo com ele, a idéia tem sido implantada com sucesso em outros países, inclusive em bairros pobres de Nova Iorque - o que demonstra que o sistema é viável para grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Muhammad Yunus se recusou a fazer uma avaliação do programa Bolsa Família brasileiro justificando que desconhece como ele é desenvolvido.
Além dos benefícios sociais, o crédito solidário tem ajudado a melhorar o meio ambiente em Bangladesh. Yunus explicou que a implantação de aquecedores solares e a geração de biogás, por exemplo, eliminou a necessidade de desmatamento para grande parte da população. ''Antes, as pessoas tinham que ter lenha para cozinhar, mas hoje já não é mais necessário''.
Yunus destacou que sua vinda ao Brasil foi um ''desafio'', já que Bangladesh enfrentou um ciclone há duas semanas que matou 5 mil pessoas. Lembrou que o aquecimento global traz um risco ainda maior para seu país, já que 20% do território fica 1 metro abaixo do nível do mar.

(*) O jornalista da FOLHA viajou a Florianópolis a convite da organização do evento.

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