A proposta de criar cotas para negros no mercado de trabalho, defendida pelo procurador do Trabalho Ricardo Tadeu da Fonseca, mudará a realidade dos shopping centers de Londrina caso seja posta em prática. Uma observação atenta das lojas dos dois maiores centros de compras no município - Catuaí e Royal Plaza - permite afirmar que o volume de negros trabalhando é bem menor que o de brancos. Nos serviços de limpeza e segurança o número de afrodescendentes é maior, mas ainda assim inferior ao índice de pessoas com pele mais clara.
A vendedora Lucimari Ribeiro, 26 anos, é uma das poucas vendedoras negras do Catuaí. Funcionária de uma loja de roupas infantis há seis anos, ela era babá do filho de uma outra lojista e conseguiu o emprego porque frequentava o shopping para cuidar da criança. ''Conheci minha atual patroa aqui (no Catuaí). Ela gostou de mim e me chamou para trabalhar'', contou.
Lucimari é convicta de que obteve a vaga porque conhecia a dona da loja. ''Quando o negro chega apenas com o currículo, é mais difícil'', acredita. Ela afirmou que conhece menos de dez negros que trabalham no shopping. Por causa dessa realidade, aprovou a idéia da reserva de vagas defendida pelo procurador. ''Mas não acho que na prática, essa lei vá funcionar'', ponderou.
No Royal Plaza Shopping, o vendedor Rafael Cordeiro Cunha, 22 anos, também se diferencia dos outros colegas por ser negro. Ao contrário de Lucimari, entretanto, ele não acredita que haja preconceito na contratação de vendedores afrodescendentes. ''Quem mostra competência consegue o emprego. Nunca sofri preconceito'', garantiu. Cunha não concorda com a proposta das cotas. ''Acho que vai aumentar o discriminação. O que precisa mudar é a cabeça das pessoas'', defende.
Os responsáveis pela administração dos dois shoppings afirmaram que a cor dos candidatos não é critério para a contratação de funcionários. ''Na equipe do Catuaí há vários negros, inclusive em cargos de chefia'', disse o superintendente do shopping, Sylvio Carvalho Neto.
O presidente da associação dos lojistas do mesmo centro de compras, Rangel Tarosso, destacou que os empresários observam a qualificação profissional dos funcionários. ''A cor é acaso'', comentou. Ele disse, ainda, que a procura de candidatos negros para vagas de vendedores é bem menor que a de brancos. ''Acho que os negros se intimidam de entrar no shopping em busca de empregos'', opinou.
Para Carvalho Neto, a diferença também é explicada pelo menor acesso dos afrodescendentes à qualificação profissional. ''A desqualificação é gerada pela marginalização dos negros na sociedade. E quem não é qualificado, acaba sendo preterido'', analisou.
O superintendente do Royal, Luiz Roberto Parizotto, e o diretor comercial do empreendimento, Osmani Vianna, afirmaram que o bom vendedor sempre tem vaga garantida nas lojas do shopping, independentemente da cor. Nos setores administrativo e de manutenção, segundo eles, o critério de contratação também é a qualificação. ''A cor dos candidatos não está especificada nos currículos'', disse Vianna.
Ambos discordam da proposta da reserva de postos de trabalho para os afrodescendentes. ''Antes de discutir as cotas, é preciso discutir as causas do preconceito'', opinou Parizotto.

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