Os principais problemas dos jovens que frequentam o consultório do médico Walter Marcondes Filho foram gerados durante a infância. ‘‘O que temos visto hoje é o resultado da falta de limites, do abandono dos pais, dos descalabros na orientação dos filhos com relação à afetividade’’, afirma. Na opinião dele, os pais erram muito quando compensam a falta de diálogo dando bens materiais, como viagens ao exterior, carro, televisão e video-games.
O número cada vez maior de separações de pais e a chamada ‘‘produção independente’’ (mulheres solteiras tendo e criando os filhos sozinhas) também afetam a tranquilidade da adolescência, acredita o médico: ‘‘Os filhos precisam da função masculina’’, avisa. O mesmo acontece, segundo Marcondes Filho, quando um casal de homossexuais resolve adotar uma criança: ‘‘Eu respeito os homossexuais. Mas, por mais carinhosos que eles sejam, essa relação pode criar uma confusão de identidade sexual, porque as crianças copiam o que os pais fazem, não o que eles falam.’’
Na opinião do médico, a moda de ‘‘ficar’’ (namoros de um dia), tão comum atualmente entre os adolescentes, não passa do reflexo da falta de laços afetivos fortes durante a infância. ‘‘As crianças precisam ter vínculo com uma pessoa’’, ressalta. Ele acredita que isso é difícil de conseguir nas creches ou mesmo com babás, quando há grande rotatividade de professoras e empregadas.
Marcondes Filho alerta que muitas características consideradas problemáticas pelos pais não passam de atitudes normais dos adolescentes: agressividade, dores de cabeça constantes, flutuações de humor, isolamento, contestação dos valores do mundo adulto, extrema ambiguidade, contradições sucessivas de conduta (docilidade e agressividade alternadas), a convivência grupal e a deslocalização temporal (às vezes, o jovem não dá importância para algo que vai acontecer em poucas horas, mas preocupa-se com outro fato que ainda vai demorar meses).
Todas essas características devem-se às quatro grandes perdas que os jovens experimentam na passagem da infância para a idade adulta, batizadas por médicos e psicólogos de ‘‘luto’’. As duas primeiras são as perdas do corpo de criança e da identidade infantil.
Ainda há o ‘‘luto’’ pela perda da bissexualidade infantil, diz o médico: ‘‘Aos 12, 13 anos ele tem que decidir sobre bissexualidade, heterossexualidade’’. E, por fim, os adolescentes vivenciam a perda da imagem infantil dos pais. Quem antes era visto como um herói - o pai - agora começa a se tornar uma pessoa comum.
Devido a esta última ‘‘perda’’, surgem os atritos entre os pais e filhos. ‘‘Nesta fase, muitas vezes, o adolescente é mais alto que os pais e começa a enfrentá-los, contestando valores morais, religiosos, governamentais’’, explica o médico. Geralmente, as discussões ficam mais acirradas porque os pais estão entrando na meia-idade. ‘‘Eles estão também vivenciando a perda dos filhos da infância e do corpo da juventude’’, constata Walter Marcondes Filho.
A adolescência começa aos 12 anos e a fase mais aguda termina por volta dos 18 anos, diz o médico. Mas o final da adolescência não é definido pela Organização Mundial de Saúde. Walter Marcondes Filho lembra que é considerado adolescente a pessoa que vive na casa dos pais e é dependente financeiro. ‘‘Enquanto ele não viver como adulto e ter a identidade de adulto, é considerado adolescente.’’
(Adriana De Cunto)

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