Belém, 07 (AE) - Fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apreenderam ontem (06) 250 quilos de carne e couro de boto na cidade de Vigia, no nordeste do Pará. A pesca do boto é proibida. A carne e o couro do animal têm sido usados como isca por pescadores para atrair peixes de grande porte, como gurijuba e bandeirado. Desses peixes é retirado o grude (vísceras), vendido por até 40 dólares o quilo no mercado internacional.
O chefe do posto do Ibama em Vigia, Francílio Ferreira Neto, disse que a maior apreensão foi na residência do comerciante Antonio Brito de Souza, autuado por pesca ilegal, crime ambiental, e multado em R$ 2 mil. O comerciante disse ter comprado a carne de boto de vários pescadores da região.
Os fiscais acreditam que 50 botos foram mortos para a obtenção dos 250 quilos de carne e o couro do animal. "A pesca em redes está transformando o boto numa espécie em extinção", disse o pescador Romildo Marinho.Para ele, quem pesca boto está "atraindo desgraças para dentro de casa e doenças na família", pois o animal, na Amazônia, "é sagrado".
O boto é um cetáceo tido como encantado e figura nas lendas amazônicas. Segundo os caboclos da região, o boto se transforma num homem bonito em noite de lua cheia para conquistar belas jovens nos lugarejos do interior, durante as festas. É comum ouvir-se estórias de moças virgens que, embaraçadas diante dos pais para explicar uma gravidez indesejada, garantem ter sido "seduzidas pelo boto". Os homens também têm respeito pelo boto, para eles um sinônimo de virilidade. O órgão sexual do animal é utilizado na Amazônia como amuleto para "atrair mulher".