Hussein é enterrado, mundo chora com a Jordânia
Amã, 08 (AE-REUTERS) - O funeral do rei Hussein, da Jordânia, fez jus à sua fama de conciliador ao reunir numa mesma cerimônia mais de 50 chefes de Estado e governo - um raro acontecimento no mundo árabe - , muitos deles inimigos entre si ou velhos rivais de Hussein, como o presidente sírio Hafez Assad.
O funeral atraiu para um mesmo evento adversários como Síria e Israel - um fato sem precedentes - e EUA e Iraque, mas os organizadores tomaram o cuidado de instalar essas delegações em locais separados.
Foi o maior encontro de reis, presidentes e chefes de governo desde o enterro do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, assassinado em 1995. Estiveram em peso em Amã dirigentes de países árabes, os quais, em sua maioria, criticavam Hussein por ter feito a paz com Israel, e uma grande delegação israelense, com 30 representantes, liderados pelo presidente Ezer Weizman.
O presidente dos EUA, Bill Clinton, compareceu com três ex- titulares da Casa Branca: Jimmy Carter, George Bush e Gerald Ford. Clinton reuniu-se depois com o rei Abdullah II e falou com vários chefes de Estado, incluindo seu colega russo, Boris Yeltsin, uma das presenças surpreendentes, já que estava convalescendo e fora proibido pelos médicos de viajar.
Envolto na bandeira jordaniana, o caixão foi levado ao meio-dia do Palácio de Bar al-Salaam (Porta da Dor), nos arredores de Amã, para o Palácio de Raghadan, onde fica o cemitério da família e a sede do governo.
A rainha Noor, viúva de Hussein, e as outras mulheres da dinastia hachemita - todas chorando e vestidas de preto, com um véu branco cobrindo a cabeça - acompanharam a saída do féretro.
O esquife foi carregado por seis homens da família, liderados pelo rei Abdullah e seus irmãos Faiçal, Ali, Hashem e Hamza, o príncipe herdeiro. Eles entregaram o ataúde a oito militares que o puseram num jipe, depois escoltado pelas ruas de Amã até Raghadan, num trajeto de 12 quilômetros.
As mulheres permaneceram em Bab al-Salaam, pois, de acordo com a tradição do islamismo, só os homens participam do funeral. Na porta do palácio estavam também os dois irmãos de Hussein, Mohamed e Hassan, e as seis filhas dele.
Centenas de milhares de jordanianos acompanharam o cortejo emocionados, acenando com bandeiras pretas e entoando cânticos religiosos. Muitos choravam, inconformados com a rapidez dos acontecimentos e receosos de que a perda do soberano, que governou a Jordânia por 47 anos, possa trazer instabilidade ao país.
Há menos de três semanas Hussein, de 63 anos, retornara dos EUA e desfilara pelas ruas de Amã em carro aberto, ovacionado por milhares de pessoas. Na ocasião, ele se declarara curado do câncer linfático, causa de sua morte, após ter-se submetido a um tratamento de seis meses.
Além da morte repentina do rei, os jordanianos ainda se estão acostumando à nomeação de Abdullah para sucedê-lo, em lugar do príncipe Hassan, que havia sido designado sucessor de Hussein 34 anos atrás
"A pessoa mais querida para nós morreu. Não pode ser verdade. Eu adoro o rei", lamentava Asma Mohammad, toda vestida de preto. Ela viajou do norte do país até Amã especialmente para o funeral. "Perdemos um pai e estamos muito tristes", disse Ahmed al-Tamari, de 65 anos. "Durante 47 anos ele controlou tudo. Era como uma luz nas trevas."
Na passagem pelo centro da cidade e quase às portas do complexo de Raghadan, a multidão rompeu o cerco policial e aproximou-se do carro com o féretro, mas a segurança retomou logo o controle da situação.
No palácio, o rei Abdullah conduziu os membros da família, altos funcionários do governo e dirigentes estrangeiros a uma ala do edifício onde o esquife foi colocado para as últimas homenagens. Ironicamente, o primeiro dignitário a honrar Hussein foi seu rival Assad, que também sofre de câncer.
Entre os líderes mais destacados estavam o presidente francês, Jacques Chirac, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, o primeiro- ministro britânico, Tony Blair, o príncipe Charles, o rei da Espanha, Juan Carlos, a rainha Beatriz, da Holanda - uma das poucas mulheres que foram ao funeral - e o líder palestino, Yasser Arafat.





