HU debate novo modelo de gestão
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sábado, 30 de novembro de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - Desde a década de 1970, os hospitais universitários vêm sofrendo com a perda de qualidade. Mas só foi a partir dos anos 90 que as discussões se intensificaram na busca por melhores gestões e gerenciamentos, visando principalmente adequar financeiramente as instituições.
De lá para cá, enquanto alguns avançaram, outros não apresentaram mudanças significativas para grande parte da população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante disso, gestores e médicos participaram ontem em Londrina do 1º Simpósio Novos Modelos de Gestão e Financiamento dos Hospitais Universitários do Paraná.
"A gente vive um momento caótico, onde precisamos agregar modelos de gestão para novas estruturas gerenciais e de financiamentos de hospitais públicos universitários. Eles estão vivendo um momento de deficit muito grande há 15, 20 anos e vai haver um colapso em pouco tempo se esse molde atual não for aprimorado, tanto na gestão quanto no financiamento", observou o médico Manoel Fernandes Canesin, coordenador científico do Simpósio.
O Hospital Universitário ligado à Universidade Estadual de Londrina (UEL) há tempos vem enfrentando uma crise provocada pela falta de recursos para investimentos, deficit orçamentário e quadro reduzido de servidores, o que resulta na falência dos atendimentos.
Em matéria publicada pela FOLHA no mês passado, o promotor da Saúde Pública de Londrina, Paulo Tavares, informou que o HU tem um deficit mensal de R$ 350 mil. Para se ter uma ideia da dimensão do hospital, só nos oito primeiros meses deste ano foram realizados 91.232 consultas ambulatoriais e 22.737 atendimentos no pronto-socorro.
"Precisamos levantar o HU porque o modelo de gestão atual é de 40 anos atrás e não nos serve mais. Ou mudamos ou os ganhos serão muito poucos nos próximos meses, com o risco da situação piorar ainda mais do que está", ressaltou Canesin.
Segundo o presidente da Fundação HUTec, Lúcio Tedesco Marchese, uma boa solução para o HU de Londrina "seria uma administração por fundação, seja uma empresa pública ou privada, pois ambas são eficientes, com financiamento adequado, inserção na comunidade e gestão profissional, como vimos no exemplo de Porto Alegre, que é um modelo muito importante de gestão de administração profissional".
A receita da capital gaúcha foi apresentada pela vice-presidente administrativa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Tanira Andreatta Torelly. "A autonomia traz a necessidade de ter uma competência para manter e garantir a eficiência, o resultado, a austeridade. O diferencial, eu sempre digo, são as pessoas que trabalham. São valores muito fortes e regras como planejamento estratégico e metas definidas, que se assemelham a uma empresa privada e que fazem com que o hospital tenha uma cara diferente", disse.
Tanira explica que 80% dos recursos são do SUS e 20% do faturamento é proveniente dos convênios. "São esses 20% que são reinvestidos no hospital. Isso está previsto em lei. Tem muita discussão sobre essa questão que chamam de dupla porta, mas ela não existe porque na verdade os serviços não competem", afirmou.
Mesmo reforçando que desconhece a realidade de Londrina, Tanira salienta que há situações que são básicas em qualquer hospital. "O que falta não são recursos, são projetos. Um bom projeto e pesquisa sempre trazem recursos, seja de onde for. Mas o hospital pode ter outras alternativas como através do gestor fazer um contrato orçado", disse.
Tanira explica que "se juntarmos os gestores (municipal, estadual e federal) para chegar ao orçamento necessário para o hospital funcionar, não nos valores de tabela, mas no orçamento de custo, não é preciso ter convênio". "Ele pode ser 100% SUS. Um hospital universitário custa mais caro que um hospital comum, mas a tabela do SUS não cobre esse custo. Então, os gestores tinham que estar mais sensíveis a essa diferenciação e dar um financiamento diferenciado para um hospital universitário", apontou.
Outra experiência apresentada no seminário foi da Fundação Zerbini, mantenedora do Instituto do Coração (Incor) do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). "Somos uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, fazendo a gestão de uma entidade pública que é o Incor. Esse convênio existe desde 1978, com a interveniência da Secretaria Estadual de Saúde. Nossa atuação é dar toda a agilidade e flexibilidade, facilitando a captação de recursos externos, que podem vir da sociedade, de empresários ou do poder público a partir de emendas parlamentares", explica o presidente José Antônio de Lima.
Por meio de um acordo com o poder público, 20% do atendimento no Incor pode ser privado e, segundo Lima, esse percentual representa hoje 50% da receita da instituição. "Acho que isso se aplicaria ao HU porque o que alavanca uma instituição de saúde é a excelência de seu serviço. Por meio do convênio, conseguimos fazer uma reengenharia dentro do modelo de gestão, levando as melhores práticas do mercado, com serviços compartilhados e um modelo de governança moderno, onde existe uma interação muito forte entre quem decide e quem executa. A lição de casa começa por gestão, transparência para todo mundo, equidade e responsabilidade corporativa", argumenta.
A reportagem tentou contato com um representante da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), mas não obteve sucesso.


