Houaiss morre aos 83 anos de falência múltipla de órgãos
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sábado, 06 de março de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
Rio, 07 (AE) - Morreu hoje, às 7h55, de falência de múltipla de órgãos, em consequência de estado séptico, o ex-ministro da Cultura e acadêmico Antonio Houaiss. Ele estava internado desde 28 de dezembro no Hospital Adventista Silvestre, em Santa Teresa, no Rio, e há 32 dias era cuidado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) . O corpo de Houaiss será velado na Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro. O enterro está programado para amanhã (08), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul.
Filólogo, tradutor e dicionarista, Houaiss tinha 83 anos. Quando tomou posse da cadeira número 17 da ABL, em 1971, o escritor, filólogo, tradutor e gastrônomo Houaiss disse, no discurso, que preferia cometer o pecado da carência ao do excesso. Coerente com os ideais, Houaiss, morre, de igual modo, evitando o excesso. Deu muito mais aos brasileiros do que exigiu do Brasil.
Diplomata defensor dos direitos humanos, ex-ministro da Cultura, tradutor daquela que é considerada a obra-prima do século, o "Ulysses" de James Joyce, Houaiss só cometeu em vida um gesto excessivo, o de começar um dicionário que deixa inacabado por falta de dinheiro. Sempre ele.
Na cultura da qual descende, a árabe, um homem que fala bem não é apenas reputado como de alta qualificação, mas um sábio. Merece, portanto, ser ouvido. Houaiss era, antes de tudo, um grande auditivo, um homem que conviveu com sábios e analfabetos, sem jamais fugir ao convívio humano. De empregado em armarinho a enciclopedista renomado, Houaiss foi professor de latim, português e literatura, mas nunca buscou a especialização
essa praga de fim de milênio que transforma pessoas em toupeiras bem treinadas.
Adolescente, preferiu a companhia de um velho alfaiate português anarquista ao chopp gelado em Copacabana, onde o pai libanês tinham um armarinho. Foi a primeira prova da vocação para o diálogo interclassista e o reconhecimento da alteridade.
Houaiss tinha, então, pouco mais de 12 anos. O ano era 1927 e a crise econômica ameaçava os EUA e também a família Houaiss, que entrava em depressão. Dos sete irmãos, Antônio era aquele que vivia cercado de livros por todos os lados. Franzino
com pouco mais de 1,60 metro, acumulou tanto conhecimento que morreu dominando mais vocábulos do que Machado de Assis (8 mil palavras contra 6 mil do escritor). Não fez isso por orgulho, mas necessidade. O maior sonho dele era dividir esse conhecimento com o povo brasileiro, que morre com menos de 3 mil vocábulos na ponta da língua. Como iria fazer isso? Simples: incorporando as mais de 2 mil palavras que surgem a cada ano num banco lexicográfico de dados.
O dicionário comunitário e computadorizado de Houaiss, que teria verbetes armazenados com acesso liberado a todos os interessados, ainda é sonho, mas o trabalho como enciclopedista pode ser apreciado na Delta Larousse, na Mirador e na Enciclopédia Britânica.
Também graças a ele, a língua e literatura brasileiras podem ser melhor estudadas em livros como "Sugestões para uma Política de Linguagem" (1960), "Seis Poetas e um Problema" (1960), "Elementos de Bibliologia" (1967) ou "Poesia e Estilo de Carlos Drummond de Andrade" (1968), além de estudos sobre Gonçalves Dias, Silva Alvarenga, Lima Barreto e Machado de Assis
para citar apenas alguns entre mais de 50 títulos que deixa como legado ao povo brasileiro.
Para esse povo, a mensagem fundamental de todos esses livros parece clara. Cultura, segundo Houaiss, não significava acúmulo, mas troca. "A cultura não pretende mudar somente a visão do mundo, mas anseia mudar a realidade quando ela é repugnante", definia o ex-ministro da Cultura. O que fazer com um mundo de 10 bilhões de almas (a maioria pobre e analfabeta) na próxima década? Era essa a grande pergunta de Houaiss, para qual procurou desesperadamente uma resposta. "Não há prática sem teoria e teoria sem aspiração à prática", disse, numa entrevista há cinco anos, justificando a fidelidade ao socialismo numa época em que o mundo tomava outro rumo.
Como presidente do PSB, Houaiss não conseguiu manter o cargo de ministro da Cultura do governo Itamar Franco justamente porque assumiu o ministério não como político, mas intelectual. Em outras palavras, sofria de falta de articulação. Muitos achavam que, como intelectual, não tinha competência para gerir e, como socialista, não sabia como administrar, mas a verdade é que Houaiss saiu porque estava descontente com a ridícula cota de 0,03% do Orçamento-Geral da União para a cultura - e disso não fez segredo para ninguém, criticando duramente os arranjos de políticos fisiológicos.
Coincidência ou não, o fato é que Houaiss ficou doente quando deixou o ministério, em agosto de 1993. Dois meses antes, foi internado no Hospital Adventista Silvestre, no Rio, vítima de uma gastrite e úlcera duodenal. A primeira endoscopia revelou coágulo no estômago. No mês da saída dele, novo colapso. Em 25 de agosto, Houaiss sentiu-se mal devido a uma súbita queda de pressão e foi socorrido por enfermeiros militares no palanque do Quartel-General do Exército, no Rio, ao participar, ainda como ministro da Cultura, do Dia do Soldado.
A saúde dele agravou-se nos últimos anos. Em outubro, o acadêmico, na semana em que completou 83 anos, foi novamente internado, com pneumonia, no Hospital Adventista Silvestre, no Rio.
Houaiss, idealizador do "Grande Dicionário da Língua Portuguesa", nem sempre foi socorrido pelos militares. Diplomata entre 1945 e 1964, teve suspenso por dez anos os direitos políticos durante o regime de arbítrio, sendo perseguido pelos militares pelas idéias liberais.
Nascido no Rio, em 15 de outubro de 1915, quinto dos sete filhos de Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss, casal de imigrantes libaneses maronitas, o acadêmico casou-se em 1942 com Ruth de Salles e deu aulas de Português, Latim e Literatura entre 1934 e 1945. Como diplomata, integrou a Comissão de Anistia de Presos Políticos de Ruanda, examinando os processos de 1.220 pessoas que foram anistiadas pela Assembléia-Geral das Nações Unidas. Em 1995, aos 80 anos, Houaiss assumiu a presidência da ABL, concorrendo com o escritor Lêdo Ivo, que abriu mão da disputa para manter a tradição da chapa única na instituição.


