Hotel diminui privacidade de FHC no Alvorada
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sábado, 22 de abril de 2000
Por Demétrio Weber e Edson Luiz 
Brasília, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso ganhou novos vizinhos. Desde sexta-feira, apenas um quilômetro separa o quarto de Fernando Henrique, no Palácio da Alvorada, dos hóspedes do Blue Tree Towers Brasília, hotel quatro estrelas que oferece, entre seus atrativos, uma vista privilegiada da residência oficial da Presidência da República. Com quatro andares e janelas de vidro espelhado, o hotel já motiva críticas de integrantes do governo preocupados com a privacidade e segurança do presidente. "É uma loucura, não sei como isso foi permitido", dispara o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, frequentador assíduo do palácio. "Alguém com um binóculo vai ver a hora em que o presidente for ao banheiro."
Ciosa da intimidade de Fernando Henrique - e de seu substituto em 2003 -, a segurança da Presidência acompanhou a obra e solicitou ao governo do Distrito Federal o plantio de um bosque na área que separa o hotel do Alvorada. Mais de 500 mudas de árvore foram plantadas e palmeiras adultas chegaram a ser transportadas de outros pontos da cidade, com o auxílio de carretas.
O resultado, porém, passa despercebido. E o local, que leva o nome de Bosque dos Leões, continua mais parecendo um terreno baldio, que não impede em nada a visão do Palácio da Alvorada. "É um paliativo", admite o secretário de Obras do DF, Tadeu Filippelli, referindo-se à "cortina verde" concebida para resguardar a residência do presidente. Em 90 dias, uma rua será aberta e pavimentada para evitar que o trânsito ligado ao hotel passe em frente do Alvorada.
Fontes ligadas ao Palácio do Planalto garantem que a preocupação central do governo é resguardar a privacidade de Fernando Henrique. Assim, segundo essas fontes, não há receio de que a proximidade do Blue Tree Towers Brasília facilite ou estimule atentados contra o presidente. O raciocínio é simples: atualmente a população já tem acesso à frente do palácio, tanto a pé quanto de carro.
A diferença, porém, é que veículos são impedidos de estacionar e até mesmo parar diante do Alvorada. Além disso, um pedestre armado chamaria bem mais a atenção da segurança presidencial do que alguém "escondido" num quarto de hotel, sob a proteção de vidros espelhados. Fuzis de uso disseminado no Brasil e no mundo, como o AR-15, o HK-47 e o Automático Leve (FAL), são capazes de acertar alvos a um quilômetro de distância.
A proximidade do hotel não preocupa o ministro da Defesa, Geraldo Quintão. "Acho um assunto tão pequeno por enquanto!", disse ele, na semana passada, informando não ter conversado sobre o tema com FHC. "É fácil separar aquilo com árvores." Convencido de que o novo empreendimento não ameaça o presidente, Quintão criticou os palácios da capital federal: "O grande problema de Brasília é que todos os palácios são muito devassados." Com 448 apartamentos, o Blue Tree Towers Brasília é a primeira parte de um complexo hoteleiro que, no ano que vem, vai incluir ainda um hotel cinco estrelas e um centro de convenções. O investimento é de R$ 140 milhões.
O complexo pertence às Organizações Paulo Octávio, do deputado federal Paulo Octávio (PFL-DF), e integra o Projeto Orla - que prevê a ocupação de determinadas áreas às margens do Lago Paranoá, incluindo as proximidades do Palácio da Alvorada, por empreendimentos turísticos, como hotéis, shoppings e bares. "Os hotéis e resorts vão tornar mais prazerosa a permanência do presidente na cidade", afirma o deputado distrital Rodrigo Rollemberg (PSB), que também não vê riscos à segurança do presidente. Secretário de Turismo do DF na gestão do ex-governador Cristovam Buarque (PT), Rollemberg foi autor do projeto que regulamentou a iniciativa.
A ocupação da orla próxima ao Alvorada pelo setor turístico está prevista nas Normas Gerais de Brasília, que fazem parte do plano diretor da cidade, segundo o diretor de Coordenação Empresarial das Organizações Paulo Octávio, Marcelo Carvalho. Ele informa que o terreno de 74 mil metros quadrados onde o grupo construiu o hotel foi comprado em 1993, no mandato anterior do atual governador do DF, Joaquim Roriz (PMDB). "É um terreno público licitado", diz Carvalho, que não considera a privacidade de FHC ameaçada pelo empreendimento. "A frente do Palácio da Alvorada é para ser vista da rua, tanto que não há nem muro ali."


