Hospital do Servidor Público Municipal sofre deterioração11/Mar, 15:48 Por Lígia Formenti Sâo Paulo, 11 (AE) - O Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) é uma unanimidade. Médicos, funcionários, pacientes e até mesmo a superintendência afirmam que a instituição sofre processo crônico de deterioração. Ninguém - nem mesmo o secretário municipal de Saúde, Jorge Pagura - esconde os problemas existentes no hospital. A lista de dificuldades é extensa. Faltam remédios e kits para a realização de exames. No prédio há cupins e o sistema de esgoto é obsoleto. Vez por outra, os vazamentos obrigam a interdição de salas ou atingem equipamentos. Não é só isso. Apesar dos 581 médicos do hospital, a lista de espera para marcar consultas pode durar até cinco meses. O abandono do local está retratado ainda no pátio. Lá, ambulâncias destruídas ficam estacionadas ao lado de carros também batidos, impedindo manobras dos carros de socorro que ainda funcionam. Descaso - Apesar das críticas, nenhum responsável pela crise foi apontado e nenhuma mudança significativa foi adotada. Enquanto isso não ocorre, os 150 mil funcionários públicos municipais - que todos os meses contribuem com 3% de seus vencimentos brutos para a manutenção do hospital - continuam recebendo atendimento precário. Além dos funcionários, são atendidos seus dependentes. Ao todo, calcula-se que a população atendida chegue a 500 mil pessoas. "O hospital já foi melhor", garante a pensionista Aparecida Fernandes, que recorre ao HSPM há mais de 30 anos. Diabética, ela consulta um especialista a cada quatro meses. Os remédios usados por Aparecida muitas vezes faltam na farmácia do hospital. "Há alguns anos, os intervalos entre as consultas eram menores e a distribuição de medicamentos era mais constante", compara. Vistoria - Há um mês, Pagura realizou uma inspeção no hospital. Ao constatar a falta de remédios, determinou o afastamento de quatro funcionários da farmácia e a abertura de uma sindicância. "Foi jogo de cena", acusa o presidente do Sindicato dos Médicos, José Erivalder Guimarães Oliveira. "Os problemas estão em escalões mais altos." O vereador Carlos Néder (PT ), que no mês passado ingressou no Ministério Público com representação contra o hospital, também põe em dúvida a eficácia da medida. "Não sei se esse afastamento vai resolver o problema", diz. "Há quem afirme que os quatro funcionários foram retirados justamente porque representavam um entrave para fazer compras suspeitas." Depois da visita do secretário, no entanto, um resultado prático foi obtido. Agora, ao circular pela enfermaria, não se vêem mais macas pelos corredores. Nas paredes, foram colocados cartazes informando que a prática está proibida. "Mas não houve milagre", afirma Guimarães Oliveira. Segundo informam médicos do hospital, o número de leitos em cada quarto foi aumentado, desrespeitando-se a quantidade recomendada. E algumas salas foram improvisadas. Ainda segundo médicos, no último mês, uma copa foi transformada em sala de atendimento. "É pura intriga", defende-se o superintendente do hospital, Gérson Andrade de Almeida. Ele explica que a calma na enfermaria é provocada pelo maior número de visitas dos médicos ao local. "Com os exames mais frequentes, conseguimos maior agilidade para conceder altas e liberar vagas", explica. Sala vazia - Em alguns locais, a falta de pacientes causa surpresa. Na quinta-feira, o setor de hemodiálise do hospital estava vazio. Uma das enfermeiras informou que o atendimento a pacientes é feito apenas às segundas, quartas e sextas-feiras. "É um desperdício ver equipamentos sem pacientes", afirma a presidente da Associação de Pacientes Renais Crônicos, Neide Barriguelli. Na ala de obstetrícia havia também, na quinta-feira, um número considerável de leitos vazios. "São realizados em média apenas três partos por dia", explica a presidente da Associação de Médicos do HSPM, Dalva Matsumoto. "A ala foi reformada e está bem aparelhada, mas hoje poucas gestantes sabem disso." Para a médica, a fama de que o hospital não apresenta boas condições afugenta as mulheres, que preferem realizar o parto em hospitais de convênio. "É o preço pago por anos de problemas." Sem teto - São situações como as que se repetem no setor de hematologia. O teto das três salas onde são realizados exames e consultas foi retirado há mais de um ano para combater os cupins que infestam o andar. Até hoje, as vigas continuam expostas. Nesse ambiente, onde a poeira é abundante, são retiradas amostras para biópsias. Não bastasse esse problema, há ainda falta de material. De acordo com funcionários, as agulhas usadas para realizar biópsia de osso estão em péssimo estado, o que atrapalha a qualidade do exame. Segundo eles, algumas vezes a extração de material para exame tem de ser refeita. "A situação não está boa, mas, sem dinheiro, não nos resta outra saída a não ser aguentar e esperar que, um dia, este hospital ainda melhore", afirma o funcionário Otávio Correa Carlos.