Rio, 24 (AE) - O ex-integrante do conjunto Polegar Rafael Ilha Pereira não é o único que engole coisas estranhas. O número de objetos retirados de pacientes levou a direção do Hospital Municipal Souza Aguiar - único no RJ a oferecer esse serviço 24 horas por dia - a conservar no Museu da Saúde as peças extraídas. Há de escudo de time de futebol a pregos, apitos e até caroço de manga. "As pessoas só não engolem aquilo que não passa pela garganta", disse o otorrino Ricardo Barbosa Nogueirol, há 25 anos no Souza Aguiar.
Um dos objetos mais curiosos do acervo é um escudo do Fluminense. Ele foi ingerido depois de uma aposta entre um flamenguista e um tricolor, durante um clássico Fla-Flu: o torcedor do time derrotado deveria engolir o escudo do próprio clube. A vitória do Flamengo foi amarga demais para o tricolor, que obrigou o filho de três anos a ingerir o emblema.
Nogueirol atendeu casos como o deu uma criança que engoliu um apito. E também já retirou uma escova de dentes do esôfago de uma adolescente. "Ela escovava a língua quando a escova escorregou e entrou garganta adentro", conta.
Alguns objetos costumam ser engolidos por pessoas de determinadas profissões. Pedreiros e marceneiros são campeões entre os que ingerem pregos e parafusos - eles costumam trabalhar com esses objetos entre os lábios. "Qualquer tapinha nas costas provoca a ingestão", afirma a chefe do Serviço de Otorrinolaringologia, Flávia Diniz Couto.
Dos assaltantes, os médicos costumam retirar cordões, relógios e anéis, engolidos na tentativa de se livrar do flagrante. E há os famosos casos de "mulas": traficantes que carregam a droga no organismo, mas acabam detidos.
São poucos os casos de pacientes que ingerem objetos como o ex-polegar. "Ele estava em desespero; isso costuma ocorrer em pacientes com algum tipo de distúrbio mental", afirmou Nogueirol. Num desses casos, o médico teve de fazer uma cirurgia. O paciente dobrou uma colher de metal e engoliu. O objeto agiu enganchou no esôfago e se fosse puxado na endoscopia
agravaria o estado do rapaz.
Aspirar - Só no ano passado, os médicos do Souza Aguiar atenderam a 520 pessoas que haviam engolido ou aspirado objetos. O segundo caso é ainda mais grave, porque se não for diagnosticado logo, pode provocar insuficiência respiratória e pneumonia no paciente, em poucos dias. Na maior parte dos atendimentos, as pessoas haviam engolido moedas, botões ou caroços. Mas há casos de parafusos, tampas de cerveja, próteses dentárias. "Quem bebe acaba perdendo a sensibilidade e não percebe que há uma tampa dentro do copo, às vezes colocada por algum colega", diz Flávia.

mockup