Segundo Eliane Ferreira, psicóloga do Hospital Infantil de Londrina, maioria das vítimas sofre violência psicológica e negligência
Segundo Eliane Ferreira, psicóloga do Hospital Infantil de Londrina, maioria das vítimas sofre violência psicológica e negligência | Foto: Gustavo Carneiro



A Iscal (Irmandade Santa Casa de Londrina) conta há quatro anos com um núcleo que acompanha os casos suspeitos de pacientes vítimas de violência. Este grupo é formado por cerca de 30 profissionais das áreas de serviço social, psicologia, chefias e enfermagem, que dividem a atuação nos três hospitais que formam a irmandade: Santa Casa, Hospital Infantil e Mater Dei. A ação surgiu depois da exigência do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e da percepção de melhorar o atendimento voltado à vítima de violência.

No Hospital Infantil, somente nos quatro primeiros meses de 2018 foram nove notificações de casos de violência contra crianças e adolescentes. "A maioria são de violência psicológica e negligência. Temos exemplos de pais que não dão a medicação receitada, de criança que chega sem higiene pessoal, muitas vezes a criança fica internada e a família não acompanha. Marcas incomuns pelo corpo", relata Eliane Ferreira, psicóloga da instituição e integrante do núcleo.

Ao detectar situações desta natureza, os profissionais de saúde acionam a rede de proteção à criança e ao adolescente e a Vigilância Epidemiológica.

VULNERABILIDADE
Ferreira aponta que a vulnerabilidade que a criança e adolescente apresentam fazem com que sejam as principais vítimas de um indivíduo violento e mal intencionado. "Falta disposição para as pessoas entenderem que a criança é totalmente depende do adulto, que é preciso paciência. É importante um olhar atento da área da saúde a este tema, porque intervindo oferece uma oportunidade de quebrar este ciclo de violência, possibilitando uma vida melhor para esta criança, pois quem é agressor, muitas das vezes já foi agredido", ressalta.

Referência no atendimento ao público infantil em Curitiba, o Hospital Pequeno Príncipe registrou no ano passado atendimento a 607 crianças e adolescentes por suspeita de violência. A maioria, 317, relacionada à abuso sexual. "Nós vamos acolhê-los e ajudamos a organizar mentalmente o que aconteceu, porque são muitas situações conflitante na mesma hora", explica Daniela Prestes, psicóloga responsável pelos atendimentos na instituição. "Concomitante a isso vamos conhecendo o que se passou, funcionando como um canal para que a vítima possa falar sobre o que aconteceu, se quiser e conseguir", completa.

RETOMANDO ROTINA
O hospital ajuda na preparação para a alta, com o intuito de não deixar o menor desprotegido. "Se a criança ou adolescente foram vítimas, eles precisam de tratamento, que é penoso, mas existem recursos psíquicos para isso. Colaboramos os preparando para retomarem a rotina, realidade de vida futura. Vemos dentro da família com quem podem contar para depois da alta hospitalar", diz.

Dos atendimentos do Pequeno Príncipe, a casa da criança é apontada como o local em que mais acontecem os abusos, maus-tratos e negligências, somando 244. Em 72% das vezes a violência é praticada por alguém da própria família. "A violência é muito significativa, ainda mais quando acontece dentro de casa, por pessoas que deveriam zelar por elas. Essas crianças, se não tiverem o tratamento adequado, podem ter no futuro traumas e se tornarem agressivas", adverte. No hospital de Curitiba e de Londrina os pais são informados sobre todo o processo que é adotado quando existe a suspeita de violência. (P.M.)

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