Hong Kong (AE-AP) - Dentro da apertada clínica do Dr. To Shui-tong, onde paira um denso aroma de ginseng mofado, Ellen Law comemora o fato de que suas sardas estarem sumindo. Outras mulheres esticam seus pescoços para checar os pontos ainda aparentes, mas ficam maravilhadas com a pele quase sem rugas de Ellen.
Todas essas mulheres escolheram tratar-se com um médico tradicional chinês baseadas pela mesma crença: a de que os remédios herbais chineses podem ser menos eficientes do que as drogas ocidentais, mas por que não testá-los? Afinal, afirma-se que eles apresentam menos efeitos colaterais, que, quando aparecem, são mais fracos do que os das drogas convencionais.
"Há uma série de produtos químicos na medicina ocidental, mas fico preocupada com os efeitos colaterais", diz Ellen, 57 anos, sentada numa sala cheia de jarras com folhas secas, raízes e frutas, cobras secas enroladas, lagartixas subindo por varas de bambu e vários pênis de cervos dentro de caixas de vidro mofadas.
Teorias sobre a medicina chinesa ainda precisam ser cientificamente provadas, mas a venda de remédios feitos com ervas e tônicos estão crescendo na medida me que a população de Hong Kong envelhece e as pessoas que precisam de remédios temem que as drogas do ocidente possam causar problemas a elas.
Observando o aumento do mercado local e procurando meios de melhorar sua estagnada economia, o governo do território preparou recentemente um plano para que a ilha torne-se o líder mundial na produção de tônicos herbais e remédios tradicionais. O governo que estabelecer um sistema de graduação e de testes científicos dos remédios chineses, dando a eles selos formais e aprovação e, assim, melhorando as chances de vendas no exterior.
Os empresários estão interessados - o mercado global para este tipo de produto rendeu US$ 16,8 bilhões em 1998. Hong Kong representa o centro do capital mundial e a China tem experiência neste tipo de medicina, o que, de acordo com alguns especialistas, representa uma potente combinação de negócios.
Mas os o número de céticos pode se maior do que o dos otimistas. A pergunta é se os chineses podem vender remédios herbais num mercado global acostumado com a filosofia médica ortodoxa do ocidente, que é regulada por rígidos padrões internacionais.
"O ritmo do desenvolvimento de remédios em diferentes partes do mundo vem sendo dramaticamente diferente", diz o doutor Hu Shilin, professor de medicina tradicional chinesa da Universidade Batista. "A globalização de algo que não faz parte da medicina em voga obviamente não será nada fácil".
Qualquer um que queira vender remédios nos EUA precisa respeitar as regras imposta pelo Food and Drug Administration, que irá comprovar e documentar qualquer benefício alegado ao remédio no tratamento de uma doença específica ou condição de saúde. Os rígidos e elaborados testes científicos são caros e levam muitos anos para serem concluídos.
Porém, produtos hebais chineses já vendem muito bem no mercado americanos de suplementos dietéticos. A maioria das misturas de ervas não são submetidas ao exame do FDA porque o Congresso aprovou uma lei em 1995 que permite a venda desses produtos sem qualquer regulação, desde que não prometam a cura de doenças específicas.
Por exemplo, os efeitos anti-depressivos da erva de São João estão sendo estudas. Mas a erva já é vendida como suplemento alimentar porque seus produtores declaram vagos benefícios como "melhora do humor" ou "melhora do bem-estar", ou seja, nenhum dos enunciados especifica a doença à qual a erva se destina.
Os chineses ficaram conhecendo essas drogas depois de milhares de anos de experiências utilizando misturas e ervas com parte de animais para suas dores. Documentação, até décadas atrás, existia principalmente na forma de casos de estudo, isso
quando existia algo escrito.
O primeiro hospital moderno de medicina tradicional foi aberto apenas na década de 50. Desde então, acadêmicos chineses vem tentando utilizar modernos métodos de pesquisa científica para estudar e documentar sua antiga arte da cura.
Diversas empresas farmacêuticas chinesas tentaram licenciar seus produtos herbais pelo FDA. Nenhuma obteve sucesso até agora.
"A maioria dos médicos ocidentais, especialmente aqueles que nunca estudaram a medicina tradicional chinesa, acretida que este tipo de medicina carece de dados científicos para apoiar seus efeitos", diz o Dr. Lam Ying-ming,, um ortodoxo médico ocidental que também conhece a medicina chinesa.
Mas há mais problemas.
As drogas produzidas na China não inspiram confiança para muitas pessoas. Lá, até mesmo molho de soja e óleo de cozinha encontrados à venda podem ser falsos.
Na clínica do Dr. To, o médico tradicional diz que muitos investidores pediram a ele para que empacote seu chá de ervas para vendas em outros locais. Seu negócio funciona do período da manhã até tarde da noite, mas ele vem decepcionando os investidores.
"De jeito nenhum, não até que eles possam garantir que o meu chá não será falsificado no mercado. Trata-se da minha reputação", diz To, sorrindo sinceramente entre baforadas de Marlboro.
Isso não impediu algumas pessoas de lucrar com a popularidade de To. Caixas de chá em saquinho com seu nome e fotografia, todos falsos, foram encontrados em comunidades chinesas nos EUA. Canadá e Austrália.
Mesmo que eles obtenham sucesso, as empresas farmacêuticas chinesas podem esperar uma competição feroz. Cientistas ocidentais também estão começando a preparar drogas e tônicos usando ingredientes naturais para o mercado de ervas, diz Dr. Henry Yeung, vice-presidente da Associação Médica de Hong Kong.
O Grupo Lee Kum Kee, líder produtor de condimentos de Hong Kong, é uma das companhias que aposta em remédios antigos. em 1992, eles investiram US$ 38.5 milhões numa subsidiária, a LKK Grupo de Produtos Saudáveis, para pesquisa e produção de tônicos que agora são vendidos em Hong Kong e China.
"Num longo prazo, nós vemos um enorme potencial no mercado globalizado", diz Harry Yeung, diretor de desenvolvimento de produtos da LKK. "A China tem o conhecimento e Hong Kong pode a frente de negócios".

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