Homossexuais dizem que agressões dos "carecas" são rotina e acusam polícia de conivência
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terça-feira, 08 de fevereiro de 2000
Por Rosa Bastos 
São Paulo, 08 (AE) - Praça da República, madrugada de segunda-feira. Duas noites atrás, o adestrador de cães Edson Neris da Silva, de 35 anos, foi espancado até a morte por um grupo de skinheads porque teria cometido a "ousadia" de atravessar a praça de mãos dadas com o namorado, Dario Pereira, de 30, que também apanhou, mas conseguiu escapar. Abraçado a Jean de Almeida, de 26, com quem vive há 3 num apartamento da Rua Aurora, o cabelereiro Lorenz de Castro, da mesma idade, espanta-se com a pergunta. "Medo? Ora, a gente está sujeita a isso todo dia; só deram bola porque o cara morreu". Segundo Lorenz, as agressões a homossexuais "pelos carecas" são comuns.
"Quebraram o maxilar da Dany a socos". Outro "colega" levou uma surra e três facadas. Eles mesmos, um dia desses, ao notar a aproximação de um grupo de skinheads, fugiram e avisaram um travesti. "Falei para correr, ela ficou parada e foi cortada com um punhal". Em grupo - A ameaça, pelo que dizem, não é só dos fanáticos neonazistas. "Basta ter jogo do Corinthians", conta Jean. Os torcedores atravessam a praça distribuindo chutes e bordoadas. "Você sabe: os homens ficam mais homens quando estão em grupo!" O que mais os revolta, porém, é a atitude da polícia. "Ou fingem que não vêem ou dão toque de recolher na gente, em vez de combater os bandidos".
Ontem à tarde, depois do crime, a praça ficou cheia de policiais, "uma hipocrisia", de acordo com Lorenz. "Poderiam revistar os skinheads para ver se estão armados com soco inglês e correntes de aço, como as que usaram para matar o rapaz", diz. "Acho que, no fundo, eles gostam de ver a gente apanhar, porque também não gostam de homossexuais".
Há algum tempo, Lorenz comprou uma bicicleta no centro. Em casa, percebeu que faltava uma pecinha. Voltou à loja com Jean para reclamar. Foram maltratados pela moça do caixa e pelos seguranças. "Fomos à delegacia e o delegado disse: Querem reclamar de quê?" Normal - A Praça da República, ponto de encontro de homossexuais e garotos de programa, já voltou ao normal. Encostado na mureta de uma ponte, em local pouco iluminado, com o zíper aberto, um rapaz conversa com outro. "Que susto!", diz um deles, que se identifica por "Liadson, policial adestrado em autodefesa". Ele explica que está ali em busca de "uma atividade escusa", embora tenha "consciência de que o lugar é extremamente perigoso".
Os bares e restaurantes da Avenida Vieira de Carvalho estão lotados. "Esse reduto, até o Largo do Arouche, é gay", diz Carlos Eduardo Santos, de 20 anos. "Medo, tenho, mas não vou viver enjaulado". A seu lado, o enfermeiro Carlos Silva, de 27, conta que, aos 12, levou uma surra do pai que havia descoberto a sua homossexualidade. "Você tem de ser homem igual a seus irmãos", berrou o pai. "Não adianta: eu sou mulher!"
Um homem de terno e gravata caminha em direção a um ponto ermo da praça, encontra um jovem. Um rapaz de bermudas largas e boné passa carregando um cassetete. Bate nas grades. "Viu só?", diz Júlio César, de 23 anos. "Não foi a primeira vez e nem a última que os carecas nos atacaram". Ele também culpa a polícia. "É conivente". União - Segundo Júlio Cesar, os homossexuais vão ali em busca de "sexo, drogas e rock-n-roll". E acabam roubados pelos próprios garotos de programa. Ele conta que já foi atacado por um grupo de skinheads, mas correu. E que também já saiu com um deles. "Como abelhas, só fazem mal em bandos; sozinhos, são inofensivos, umas flores". Para ele, "no fundo, no fundo, skinheads são homossexuais como todos os homens que nos perseguem".
Por Júlio César, nordestinos, negros e homossexuais deveriam unir-se, ir até o ponto de encontro dos skinheads e dar-lhes uma surra. Já Sammy, de 34 anos, cabelereiro e maquiador, que os considera "dementes" e compara o assassinato do adestrador ao do índio Galdino, acha que os carecas deveriam olhar-se no espelho e aprender a se gostar. "Por que não deixam o cabelo crescer, botam um brinco, um batom e vão viver a vida?"


