Homenagens a Marielle e Lucía Pérez marcam abertura do Ella
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sábado, 08 de dezembro de 2018
Mariana Franco Ramos <br> Grupo Folha 

La Plata, Argentina - Mais de três mil mulheres, de 26 países, estão reunidas desde a noite de sexta-feira (7) em La Plata, na Argentina, na quarta edição do ELLA - Encontro Latino-Americano de Feminismos, para clamarem, juntas, por "nenhum direito a menos". A abertura, na noite de ontem, foi marcada por discursos políticos e homenagens emocionadas a Marielle Franco e Lucía Pérez.
Negra, bissexual, mãe, moradora da favela da Maré e militante de direitos humanos, a vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em 14 de março do ano passado, foi lembrada na maioria dos discursos. Os criminosos estavam em um carro que emparelhou com o da parlamentar e efetuaram vários disparos, que também mataram o motorista. O caso segue sem solução.
"Marielle construiu uma outra forma de fazer política. A nossa 'mandata' era a materialização de tudo o que a sociedade racista, misógina, machista, preconceituosa, violenta e hipócrita rejeita", afirmou a deputada estadual eleita Mônica Francisco (PSOL), do Rio, que trabalhou no gabinete da vereadora e, no Ella, disse representar a família da amiga. "Naquele 14 de março, quando destruíram a existência física de Marielle, imaginaram que paralisariam uma luta", completou, para uma plateia lotada.
Além de Mônica, participam do evento ativistas, lideranças de diversos movimentos e membros de partidos de esquerda, como Manuela d'Ávila (PCdoB), que foi candidata a vice-presidente na coligação encabeçada por Fernando Haddad (PT), e Sônia Guajajara (PSOL), a primeira indígena a integrar uma chapa presidencial, ao lado de Guilherme Boulos (PSOL).
Já a adolescente de 16 anos foi vítima de feminicídio em 8 de outubro de 2016, na cidade de Mar del Plata, após ser drogada e estuprada. As mortes de Lucía e de outras quatro mulheres, incluindo a de uma menina de 14 anos, desencadeou a famosa marcha "Ni una menos" [em português, "Nem uma a Menos"], em protesto contra a violência de gênero que assola o mundo.
No final de novembro desse ano, porém, a Justiça absolveu os três homens que foram a julgamento. Dois deles foram condenados a oito anos de prisão por "porte de entorpecentes para fins de comercialização" e pagarão uma multa de 135 mil pesos [o equivalente a cerca de R$ 13, 4 mil]. O terceiro envolvido acabou solto.
MOMENTO POLÍTICO
A situação política do continente foi igualmente lembrada. O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), e o presidente da Argentina, Mauricio Macri, foram os principais alvos. "Esse talvez seja o momento mais tenso no Brasil dos últimos 40 anos. Nós, indígenas, que resistimos à colonização, à ditadura militar e ao golpe de estado, estamos aqui para dar as mãos. Viemos nos somar. É uma luta que a gente já faz há 518 anos", destacou Guajajara.
"O que estamos vivendo hoje nos ameaça a regredir mais de 50 anos. A gente volta a escutar que quem vai resolver o problema do Brasil é a igreja, e não a política. O Bolsonaro quer fazer que as mulheres voltem para a cozinha. E somos obrigadas a escutar? Vamos permitir isso? Não. Vamos juntas dizer 'ele não' (...) Vamos continuar ocupando os espaços de poder. Embora os partidos políticos não sejam o melhor instrumento para dar conta da revolução feminista, é um espaço para a gente estar dentro", completou.
Manuela d'Ávila iniciou sua fala com a célebre frase "somos as netas de todas as bruxas que não conseguiram queimar". "Nós somos Lucía, somos Marielle. Somos as dores que fazem com que tenhamos empatia e sororidade. São essas dores de um passado e um presente de muita luta que nos levam a sonhar e lutar por um mundo em que não haja nenhum limite para nós, mulheres latino-americanas, brasileiras, argentinas, de todas as cores, credos e orientações sexuais", discursou.
"O nosso sonho e a nossa utopia, o que nos faz sonhar com todas as diferenças que temos entre nós, é o fato de sabermos que não há outra sociedade possível se o desenvolvimento não enfrentar as desigualdades às quais somos submetidas. O nosso assunto não é um assunto ao lado. Não é um assunto que diz apenas aos nossos corpos, como eles querem nos dizer", prosseguiu.
De acordo com ela, a "primavera das mulheres" é a saída a para o que chamou de "inverno dos homens autoritários". "As mulheres do nosso continente não se calam. Enfrentaram a escravidão, ditaduras, enterraram seus filhos... Abaixam a cabeça apenas para olhar o que carregam em seus corações. O desenvolvimento e a liberdade só serão construídos ao lado da luta feminista (...) Feminismo é o oposto da solidão, porque lutamos todas juntas para construir uma nova sociedade".
Os debates, mesas e oficinas do Ella prosseguem até segunda-feira (10). Cerca de mil mulheres estão em um "acampamento colaborativo", instalado na Universidade de La Plata, a 70 quilômetros de Buenos Aires. Há cantinas e barracas, onde são vendidas refeições a preços populares. As demais participantes ou moram ou estão hospedadas no entorno. A programação completa está disponível no Medium.com.


