Histórico de polêmicas entre Brasil e FMI continua
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sexta-feira, 14 de abril de 2000
Por PAULO SOTERO, Correspondente da AE 
Washington, 15 (AE) Nos tempos da inflação, uma pergunta permeava as discussões sobre as relações do País com o Fundo Monetário Internacional: o Brasil vai ao Fundo?
Em torno dela, travaram-se inúmeras falsas polêmicas entre 1982 e 1993, período em que o Brasil assinou mais de dez acordos com o FMI e não cumpriu nenhum. Com sua própria credibilidade em jogo, no início de 1994 o FMI recusou-se a endossar o Plano Real.
Em novembro de 1998, com a inflação dominada, o País pediu a ajuda do Fundo para realizar a delicada transição para o regime de livre flutuação cambial. A operação, até agora, foi um sucesso.
Mas as boas notícias em nada diminuíram o poder do FMI de provocar discussões inúteis no Brasil. Uma delas aconteceu na última reunião anual da instituição, em setembro do ano passado, em Washington. Um dos temas em debate era a ampliação de um programa de redução da dívida dos países mais pobres e endividados. Discutia-se, também, se o FMI deveria envolver-se diretamente na elaboração de políticas antipobreza, uma proposta inspirada em parte pela necessidade da instituição de melhorar sua imagem pública depois da crise financeira asiática.
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, e os representantes de vários outros países em desenvolvimento criticaram a proposta
argumentando que o FMI deveria ater-se às questões financeiras e monetárias, que são sua especialidade, e deixar os temas sociais para o Banco Mundial, que conhece melhor o assunto.
Já com planos de se aposentar e preocupado com seu lugar na história, o então diretor-gerente da organização, Michel Camdessus, abriu o encontro fazendo um apaixonado discurso em defesa dos pobres.
No Brasil, esses três fatos foram apresentados como prova de uma mudança fundamental de orientação do Fundo. No lugar do odioso FMI do passado, surgiu de repente o "FMI social", uma instituição mais simpática e menos exigente.Os políticos concluíram que Malan era contra esse Fundo mais bonzinho e o ministro foi atacado por ter ficado "à direita de Camdessus".
Na entrevista coletiva de encerramento da reunião, Camdessus foi perguntado se a preocupação do FMI com a pobreza significava que a instituição relaxaria suas prescrições.
"Somente um jornalista amador poderia chegar a essa conclusão", respondeu Camdessus.
A falsa polêmica criada na semana passada por um suposto ataque do diretor-gerente em exercício do FMI, Stanley Fischer, contra o Congresso Nacional é o exemplo reverso e mais comum da reação visceral que o Fundo costuma despertar entre os brasileiros.
Fischer, que teve um papel-chave na aprovação da assistência ao País, em dezembro de 1998, começou a entrevista coletiva que concedeu na manhã da última quinta-feira destacando o bom desempenho da economia brasileira.
Voltou a falar do Brasil ao responder a uma pergunta sobre a legitimidade dos protestos que milhares de manifestantes
em sua esmagadora maioria americanos, prometem fazer amanhã em Washington contra o FMI e o Banco Mundial, "em nome dos povos do mundo".
"É uma questão muito difícil lidar com a interação entre governos democraticamente eleitos e grupos que dizem representar o povo nos países democráticos", começou ele.
Como a pergunta partira de um brasileiro, ele citou o Brasil como exemplo do que acabara de afirmar.
"No Brasil, lidamos com (um País) onde o governo é eleito por um processo democrático e há um Congresso que, para dizer o mínimo, é muito populista", afirmou. Por essa razão, "é muito difícil afirmar que o processo político (no Brasil) não está fazendo o que foi desenhado para fazer, ou seja, permitir que as opiniões das pessoas sejam representadas".
Alertado de que a palavra "populista" que em inglês tem mais de um significado e pode ser sinônimo de "representação popular" , seria mal interpretada no Brasil, Fischer esclareceu que fora "impreciso e infeliz" no uso do termo.
"Se você ler a frase no contexto da declaração, verá que o que ele quis dizer é que o Congresso brasileiro tem representação popular", disse o porta-voz do FMI, Francisco Baker.
Mas a explicação de pouco valeu. Alguns políticos já haviam respondido.
Outros preferiram não acreditar na explicação. A ninguém ocorreu que o dirigente do Fundo não tinha nenhum interesse em fazer um ataque gratuito contra o Congresso brasileiro. E, no dia seguinte, os jornais manchetaram as reações indignadas de Brasília ao ataque que não aconteceu.


