Histórias marcadas pelo terremoto
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de janeiro de 2012
Davi Baldussi <br> <br> Reportagem Local 
Ibiporã - Usando um boné com o desenho do Homem-Aranha, Canes Juenes está sentado em frente a uma casa grande no Centro de Ibiporã (Norte). Ele lê atentamente uma Bíblia, uma das poucas coisas que trouxe do exterior. Juenes é um dos 18 haitianos que chegaram ontem para trabalhar na cidade de 48 mil habitantes, vizinha de Londrina.
Com 53 anos, ele é como o ancião do grupo, cuja maioria tem entre 20 e 30 anos de idade. ''Perdi tudo no terremoto (de 12 de janeiro de 2010). Minha casa, trabalho. Perdi irmãos. Só restou minha esposa e quatro filhos. Vim para cá para trabalhar, ganhar dinheiro e poder construir uma casa para eles lá'', contou Juenes. Como está apenas há dois meses no Brasil, ele não fala português e contou com a ajuda de um tradutor para conversar com a reportagem.
Quem facilitou o diálogo foi Makenson Eliacin, 25 anos. Há dois, antes do terremoto que arrasou o Haiti, ele era o que vivia mais perto de Ibiporã. ''Morava na Argentina. Estudava na Universidad del Chacho Austral'', relatou, mostrando documentos da época.
Com a tragédia, os pais de Eliacin, que conseguiam sustentá-lo no exterior, perderam tudo. ''Hoje a situação inverteu. Vim ao Brasil para mandar dinheiro para eles. Tenho vários irmãos e quero que possam estudar'', disse ele, que não chegou a concluir seu curso de Administração na Argentina. ''Espero conseguir voltar a estudar também e poder ajudar meu país na reconstrução.''
Eliacin também traduziu a entrevista com Sarac Darcelin, 33. Pai de seis filhos, ele deixou no Haiti a esposa grávida. ''Quero trazer minha família para o Brasil. Tinha comércio em Porto Príncipe, mas o terremoto destruiu tudo. Faz muito tempo que tinha sonho de vir ao Brasil'', declarou ele, que há três meses está no País.
A maioria dos haitianos que chegaram a Ibiporã fez a mesma rota e não sabe falar português. Os que têm alguns meses a mais de vivência no Brasil conseguem se comunicar. Eles voaram do Haiti para o Equador e seguiram para o Peru, de onde atravessaram a fronteira no Acre. Já dentro do Brasil, permaneceram no Acre até conseguirem documentos e, depois de uma exaustiva viagem de ônibus, desembarcaram em São Paulo.
Makenson Eliacin é exceção. Como estudava na Argentina, veio do país vizinho ao Brasil. ''Meu primeiro objetivo é trabalhar e ajudar minha família. Pois a situação no Haiti está deplorável.''
Já Wilkens Desir, 23, conta que perdeu o pai e primos no terremoto. ''A nossa casa caiu'', contou. Como tem mãe e irmãos, ele espera enviar dinheiro a eles. ''Venho para trabalhar'', resumiu.
A partir de segunda-feira ele e outros haitianos começarão a labuta. A vinda deles para o Paraná é resultado de um acordo entre o Sindicato dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadorias em Geral de Ibiporã com o Consulado do Haiti em São Paulo. O encontro aconteceu no dia 13 janeiro. O sindicato ofereceu emprego e moradia aos imigrantes, que devem receber em torno de R$ 1 mil por mês por oito horas de trabalho diário. Até segunda-feira mais quatro haitianos devem chegar de São Paulo e se juntar ao grupo.
Eles estão alojados numa alugada pelo sindicato. ''Nós vimos as notícias na televisão de milhares de haitianos fugindo para o Brasil por conta da situação do país e ligamos para o Consulado. O nosso setor está precisando de mão de obra, mas o principal motivo foi social mesmo. Esse pessoal sofre com a fome, com as más condições de trabalho'', contou o advogado Alex Adamczick, responsável pelo departamento jurídico do sindicato.
Só no ano passado 4 mil haitianos teriam vindo para o Brasil, de acordo com dados do Ministério da Justiça. O Haiti é um dos países mais pobres do mundo e ainda está longe de se recuperar do terremoto que abalou a nação. A tragédia matou 316 mil pessoas. Ainda hoje mais de 500 mil ainda vivem em barracas em 800 campos de refugiados.


