Histórias da Folha
Há meses vinham correndo o País, no inverno, depois na primavera e no verão de 1955, rumores de que os militares estariam preparando um golpe para tomar o poder. Falava-se que a caserna pretendia impedir a posse de Juscelino Kubitschek e de João Goulart, eleitos em 3 de outubro para presidente e vice-presidente da República. Onde há fumaça, há fogo, diziam os boateiros.
Sabedor disso, no dia 18 de outubro, o general Henrique Teixeira Lott, Ministro da Guerra, demitiu o general Zenóbio da Costa, inspetor-geral do Exército, mais oito oficiais de alta patente que ocupavam cargos importantes no alto escalão das Forças Armadas.
A demissão deveu-se a um pronunciamento de Zenóbio da Costa, um dos heróis da FEB. Zenóbio exortara as Forças Armadas a defender o regime constitucional, conforme notícia divulgada pela Folha em 19/10. No mesmo ato, Lott afastou outros oito oficiais do Exército e da Marinha: seis generais, um almirante e um coronel do Exército.
Naquele pronunciamento, Zenóbio referira-se a Lott como Chefe Supremo do Exército. Este título é prerrogativa do Presidente da República. Zenóbio, se queria tranquilizar a Nação, acabou jogando gasolina na fogueira e desagradou o ministro Lott.
Abastecida por agências de notícias, a Folha acompanhava o crescimento dos rumores. Havia uma intranquilidade nas Forças Armadas, que preocupava os partidos políticos. Estes fariam em seguida um manifesto à Nação, repudiando os boatos. Mas até no Congresso continuava o falatório sobre golpe. O presidente Café Filho, já preocupado com a repercussão da boataria na opinião pública, afirmava: O País está em calma. Em calma ou não, por coincidência, Café Filho seria logo internado com problemas cardíacos. O golpe viria em seguida, quando Lott se exoneraria da função de ministro da Guerra. Pouco mais tarde retomaria o cargo e demitiria o presidente interino Carlos Luz. Café Filho quis retornar à Presidência, mas foi impedido.
IndústriaA Maltaria e Cervejaria Londrina começou a funcionar no verão de 1955
(Foto: documento histórico do Jubileu de Prata da cidade)Outros membros do comando das Forças Armadas acabariam sendo afastados naquele período, além de Zenóbio da Costa e seus oito companheiros da punição anterior.
Um dos punidos, general Alcides Tchgoyen, afastado do Comando da Artilharia da Costa, acossado por um jornalista, acabou comentando: A situação do País é realmente grave. Mas não entrou em detalhes.
NovembradaEm 8 de novembro o presidente da Câmara, Carlos Coimbra Luz, assumiu interinamente a Presidência da República, devido ao licenciamento do presidente Café Filho. Carlos não pretendia modificar o Ministério, mas no mesmo dia Teixeira Lott exonerou-se do cargo e o general Álvaro Fiuza de Castro assumiu. No dia 11, em nome da normalização constitucional, Lott retomava o Ministério da Guerra e destituía Carlos Luz. A alegação era de que o oficialato superior estava descontente porque Carlos Luz mantivera o coronel Jurandir Mamede no Clube Militar. Eles queriam o afastamento do coronel, do cargo de assistente da Escola Superior de Guerra.
RestriçõesNo mesmo dia, 11/11, o vice-presidente do Senado, Nereu Ramos, assumia a Presidência da República, até Café Filho reassumir o cargo.
Estava proibida a venda de bebidas alcoólicas, inclusive em boates; suspenso o funcionamento dos bancos até a quarta-feira seguinte (esta notícia foi publicada num sábado); interditado o Aeroporto Santos Dumont; os vereadores cariocas solidarizaram-se com Lott; o Sindicato dos Jornalistas também. A Câmara de Londrina aprovou moção de solidariedade ao ministro da Guerra; Carlos Luz fugiu no cruzador Almirante Tamandaré.
Carlos Lacerda, jornalista e deputado, fazia campanha golpista pelo rádio e jornal (era dono da Tribuna da Imprensa). Acabou pedindo asilo político na Embaixada de Cuba. Lott manifestou-se pelo cumprimento da Lei e respeito ao resultado da eleição presidencial.
Censurou-se a imprensa. Por acordo entre o governo do momento e os jornais, a censura seria branda, feita pelos próprios jornais. Alguns abusos, que teriam desrespeitado o acordo, levou as autoridades federais a adotar censura prévia. O País estava sob estado de sítio. Carlos Luz voltou ao Rio e renunciou à presidência da Câmara Federal. Dia 16, levantou-se a censura à imprensa.
Suor e cervejaEnquanto, no Rio, o paraibano Café Filho, fora da Presidência por problema de saúde, era expulso do seu partido político, o PSP, era declarado impedido pelo Congresso, e amargava a demora no julgamento do seu mandado de segurança para retornar ao cargo de presidente do Brasil (o Estado de Sítio impede o Supremo Tribunal Federal de julgar os direitos dos cidadãos como habeas-corpus e mandados de segurança), em Londrina a situação estava mais amena do que o nervoso verão carioca.
A panela vai ferver...A cerveja vai cozinhar!/E fervendo na panela o melhor malte, a melhor cevada, o melhor lúpulo./ Estaremos preparando para você A MELHOR CERVEJA.
A Folha publicava este anúncio da Maltaria e Cervejaria Londrina, convidando o povo para, nos dias 10 e 11 de dezembro, visitar a fábrica e assistir ao início de fabricação da cerveja. Os acionistas receberiam, na visita, suas carteiras de sócios da indústria. A inauguração faria parte das comemorações dos 21 anos do aniversário da cidade, dia 10/12.
No dia 19/12, o prefeito Milton Menezes acionaria o equipamento da indústria, pondo a funcionar a cervejaria e a cozer a mistura da primeira cerveja.ArquivoHistóriaJuscelino Kubitschek, Nereu Ramos e João Goulart: no olho do furacão políticoJota Oliveira





