Dia destes, estava na ante-sala da diretoria do jornal, uma secretária me disse que ‘o seu Haroldo está lá dentro’. Fiquei pensando em quem seria este ‘seu Haroldo’, até que lembrei que estavam entrevistando antigos profissionais do jornal sobre os 50 anos e então me dei conta que a moça falava do ‘Bugre’, que conheci ao entrar na ‘Folha’ e que por muitos anos trabalhou na velha rotativa.
Esta questão dos apelidos no jornal tem uma dimensão que parece piada. Há alguns anos, um mensageiro chegou para o sr. João Milanez perguntando por uma pessoa chamada Alexandre Rocha Filho. Seu João simplesmente disse não conhecer ninguém com este nome. Foi preciso uma terceira pessoa informar que se tratava do ‘Mineiro’, que havia começado quase um menino, no jornal, conhecido há anos pelo patrão. Que só não sabia o nome dele.
Armando Duarte: entreveroAssim era. Há alguns antigos funcionários de que só lembro o apelido. Havia o Zapata, que trabalhava na oficina, o Bugre, já citado, o Leitão, o Bachela, o Pinga, o Bugio, o Jaraguá, Bonzo, o Tequinha (estes dois últimos linotipistas, já falecidos, o Luiz Costa e o Nelson Pereira, que era meu genro, mas isto é outra história). Um dia destes, conversei com o Armando Duarte, que começou a trabalhar na oficina naquela época, perguntando por que é que ele não teve apelido. Armando, que está aqui até hoje, disse não saber, mas aponta uma possível explicação: é que logo nos primeiros tempos teve um entrevero com o Jaraguá, mostrando que não gostava de brincadeiras e não tinha medo de cara feia. Pode ser que isto tenha inibido os fazedores de apelido.
Recentemente, encontrei o ‘Nenê’. Um senhor, já aposentado, que se chama Onézimo Grotti, irmão de Álvaro e Reinaldo Grotti (ambos falecidos, os dois também com anos dedicados ao jornal). Onézimo ganhou o apelido de família, era o mais novo dos irmãos. Entrou Nenê, ficou Nenê até agora.
Alexandre Mineiro RochaNa redação, havia poucos apelidos. Tinha o ‘Turco Gordo’, que era o Abrahão Andery, e o ‘Turco Magro’, em contraposição, o Arceno Atas. Já o Wilson Silva criou o seu próprio apelido, ele que era o ‘Marquês de Araçoiaba’ no seu ‘Atrás do toco’, coluna de sátira e humor que fez época. Naturalmente, pelo menos ao que saiba, Nilson e João Rímoli não tinham apelidos. Não sei por que, também não houve apelidos para mim, o Militão, o Walmor, o Carlos da Silva, o José Carlos Abrahão. Mas o Nelson Severino não escapou, era o ‘Morcego’. E tinha também o ‘Cebolinha’, apelido do veterano Isnard Cordeiro.
Os apelidos surgiam com ou sem motivo, e ficavam. Os garotos que entravam para trabalhar na redação, os meninos que começavam vendendo jornais e passavam para a entrega, iam ganhando apelidos. Alguns pegavam por algum tempo, outros marcaram a vida. Havia aquele que se tornou ‘Marginal’ quando menino e que hoje é o Roberto Lisboa, diagramador; também havia o ‘Xuxo’, que ganhou o apelido quando entregava jornais e continua mais conhecido assim do que com o nome de José Pedro Lima, o festejado e premiado fotógrafo. Tinha o ‘Nixon’, outro fotógrafo. Na época era apelido, depois passou até a ser nome de outro garoto que trabalhou por aqui. Na circulação ainda havia o ‘Zu’ (Jezuino) e o ‘Peninha’, irmãos, Ivo Marafo. E não dá para esquecer o ‘Garrafa’, antigo motorista, cujo apelido identificava uma de suas preferências.
Haroldo Bugre de Souza
Interessante episódio ocorreu há muitos anos envolvendo alguns funcionários da ‘Folha’, uma confusão na ‘zona do meretrício’. Eram quase todos garotos fazendo sua arruaça. Aí, chegou a polícia, ameaçando prender. E um deles, sem medo nenhum, se identificou: ‘‘Vocês sabem quem eu sou? Eu sou o famoso Leitão da Folha...’’ O policial ficou até meio assustado, quis dispensar. Mas no auge da coragem, ele insistiu: ‘‘Pode me levar’’. Acabou em cana.
Hoje, ele, que cursou Comunicação Social e acabou dono de banca de jornal, lá na avenida Higienópolis, e que se chama Antonio Gomes Sobrinho, talvez nem se lembre mais do tempo em que foi o ‘‘famoso Leitão’’ da Folha.

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