Pode-se dizer que ela foi a precursora do colunismo social, em Londrina. Surgiu pelos anos 50, assinando o ‘Carnê Social’, com notas sobre aniversários e outros eventos. Depois, foi ampliando o leque, passou a falar de moda, dar receitas, publicar poesias (naquele tempo, a maioria dos grandes jornais dava espaço para os poetas), conselhos às mulheres, preceitos vários. A coluna foi mudando e passou a se chamar ‘Feminilidades’, enquanto a parte social acabou sendo transferida para outro colunista, o discutido Sady Saffadi. Perdeu o filão social, mas manteve a linha.
Ela era ‘Tia Jurema’, um personagem complexo, cheio de vida. Dizia-se que era uma senhora muito viajada (assim se chamavam as pessoas que conheciam um pouco mais do que o local em que nasceram, devendo, naturalmente, ter passado pela Europa, ao menos uma vez), experiente, bondosa que havia resolvido partilhar com os leitores tudo quanto havia acumulado ao longo de uma vida verdadeiramente produtiva.
Naquela época, a ‘Folha’ publicava muitas colunas. E a maioria não tinha a assinatura dos redatores que trabalhavam normalmente. Havia pseudônimos, como o ‘Argus’, que assinava a ‘Ronda pela Cidade’, ou ‘Radialino’, que escrevia a famosa, polêmica e muito lida ‘Coluna do Rádio’, viria depois o já citado Sady Saffadi (digno êmulo do mito que surgia na época, Ibrahim Sued), e havia a ‘Tia Jurema’, que por muito tempo brilhou nas páginas do jornal, conquistando até um grande número de fãs. As leitoras escreviam para ‘ela’, pedindo conselhos, telefonavam também. A colunista raramente recebia críticas. Só quando as receitas que publicava não davam certo. Mal sabiam as leitoras, que viam os quitutes estragados quando a receita não dava certo, que a culpa não era da ‘tia,’ mas da revisão do jornal, bem precária à época. E vocês já imaginaram receita publicada com erro?
Arquivo/FolhaGuruJoão Rímoli, guru de toda a primeira geração da ‘Folha’O grande problema que existia no jornal era quando alguém ligava para falar com a ‘Tia Jurema’. O natural seria dizer que ela não estava na redação, que trabalhava em casa. Mas, não era o que se fazia. O telefonema era transferido para a própria. E a surpresa dos interlocutores era imensa quando ouviam, ao invés da esperada voz meiga de uma senhora tão carinhosa, o vozeirão de um homem. Pois ‘Tia Jurema’ foi muita gente. E naquele tempo, quando nem se pensava em redatoras no jornal, foi, sempre, um homem. Foi João Rímoli, quem a ‘criou’, ele que foi o grande precursor, que era o ‘Argus’, foi o ‘Sady Saffadi’, era o editorialista, escrevia ‘Notas e comentários’, fazia ‘Quatro cantos, quatro fatos’ e adicionalmente era o guru de todos os que trabalhavam na redação, inclusive de seu irmão, o diretor Nilson Rímoli. Quem assumiu o papel de ‘Tia Jurema’ foi o iniciante em jornalismo Walmor Macarini. E, na sequência, ‘Tia Jurema’ foi Oswaldo Militão.
Conta-se por aqui que, na verdade, para Oswaldo Militão a ‘Tia Jurema’ foi uma espécie de porta de entrada para o jornal. Recém-chegado de Bela Vista do Paraiso para completar os estudos em Londrina, ele dividia um apartamento com Walmor Macarini no ‘Lar Hotel’. Dois jovens, davam-se bem. Walmor trabalhava no jornal (sobrinho de João Milanez, tinha vindo de Meleiro, Santa Catarina direto para a ‘Folha’). Militão no escritório do advogado Dionísio Kloster Sampaio. Certa manhã, Walmor passou mal, não podia levantar. Perguntou se o companheiro sabia escrever a máquina. Militão sabia (na verdade, sempre foi um dos melhores datilógrafos do jornal). Então pediu que ele fosse à redação e orientou como deveria fazer para preparar a Coluna da ’Tia Jurema’, onde estavam as pastas com receitas, com preceitos, as notas sociais. Militão chegou cedo, abriu as gavetas, sentou diante da máquina e se pôs a batucar. João Rímoli chegou e perguntou quem ele era e o que estava fazendo ali. Militão disse que era companheiro de hotel do Walmor, que o amigo estava passando mal (o que provocou revolta, porque naquele tempo quem trabalhava no jornal estava proibido de ficar doente!) e que estava lá para fazer o trabalho do outro. Esta também podia ser (como foi) uma das maneiras de se começar no jornalismo, pelo menos aqui. Claro. naquele tempo, Oswaldo Militão não pensava em ser jornalista. Tinha um caminho traçado, sua mãe, dona Zulmira, o havia trazido para Londrina a fim de estudar, formar-se, ter uma profissão liberal. Ele de fato terminou o colegial, fez vestibular na Faculdade Estadual de Direito de Londrina, passou, fez o curso. O que, aliás, aconteceu com muita gente. Nilson Rímoli foi da primeira turma da Faculdade Estadual de Direito. Depois do Militão, Antônio Claret de Rezende também fez Direito. Eu também, na mesma classe que Délio César, Leonardo Henrique dos Santos, Otoniel de Souza, José Carlos Abrahão (todos com passagem pela ‘Folha’) e Edilson Leal de Oliveira, que veio de Brasília e completou o curso aqui.
Militão primeiro se tornou ‘Tia Jurema’ e, depois, foi abrindo seu caminho. Foi revisor, passou para o esporte, tornou-se colunista social e ainda hoje é este excelente jornalista e uma pessoa fantástica.

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