Historiador recupera arquivo sobre Franca, em SP
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sábado, 27 de novembro de 1999
por Moacyr Castro 
Franca,SP, 27 (AE) - Todos os documentos que contam a história da cidade de Franca, no interior de São Paulo, e de seus moradores estão recuperados pelas mãos do historiador José Chiachiri Filho, de 53 anos. O acervo que esse ex-professor da Unesp, cego desde 1977, montou no Arquivo Histórico Municipal vai além de sua cidade. Retrata a moral e comportamentos de séculos atrás. Para Chiachiri, "o arquivo permite conhecer a evolução e o comportamento da vida das pessoas num pedaço do Brasil e do mundo, numa região de São Paulo".
Os documentos reunidos contam tudo sobre Franca, da região de Ribeirão Preto, desde o inventário do desbravador Carlos Barbosa de Magalhães, herdeiro do Pouso de Cubatão, morto em 1776, até hoje. São 7 mil caixas que guardam em ordem cronológica e por assunto atas da Câmara Municipal, os proclamas de casamento, processos civis e criminais, registros das transações imobiliárias urbanas e rurais, partilhas, contratos de parceria agrícola, litígios trabalhistas, as heranças e os livros dos cartórios. A informatização levou dois anos para se completar e é obra de Chiachiri Filho, que trabalha com a equipe formada por uma auxiliar de pesquisa, três escriturárias e dois estagiários da universidade. "O arquivo é público, mas se destina principalmente a historiadores, pesquisadores e cientistas sociais", diz Chiachiri.
Mais antigo - O inventário de Barbosa de Magalhães é o documento mais antigo do acervo. Esse homem chegou logo depois dos bandeirantes e antes dos entrantes, que só se estabeleceram no século 19, ao percorrer a Estrada dos Goiases, levando feijão
sal e toucinho da São Paulo de Piratininga para o Sertão da Farinha Podre, na Vila Boa de Goiás, onde estavam as minas de ouro descobertas por Bartolomeu Bueno da Silva, Anhanguera II. "Sua gente se misturou aos índios caiapós e o inventário descreve a casa de morada, coberta de telhas e com sete janelas, o rancho para viandantes, o monjolo, o pomar, as roças de mandioca, feijão e milho e o gado."
As curiosidades são muitas. Entre os francanos do fim do século passado, havia o hábito de fazer o "juramento dalma e bem-viver". Assim, um marido declarou em cartório que perdoava publicamente a mulher adúltera, "mas ela tinha de abrir mão da herança..."
Naquela mesma época, os pais podiam alugar os filhos. Para provar, há um registro cartorial indicando que um casal alugou para outro um menino de 12 anos para ser mandalete (equivalente ao office-boy). Quem o alugou, por quatro anos, obrigava-se a alimentá-lo e educá-lo e ainda pagar aluguel aos pais. Mas a história não acabou bem. Um dia, o garoto foi entregar um vestido de noiva a mando da "mãe locatária" e demorou-se, porque o vigário pediu-lhe que entregasse uma encomenda de salgadinhos. Apanhou e fugiu. Até argumentou perante o juiz que "não poderia deixar de atender a um pedido do padre". Não adiantou. Os "locatários" devolveram o mandalete e exigiram de volta o aluguel pago adiantado.
Crime - A primeira fotografia usada como prova num processo criminal em Franca é macabra. É de 1896. O ex-escravo José Manoel Pereira, o Amargoso, foi acusado de roubar um faca de dois gumes e um lenço de pescoço na fazenda do coronel Chico Lino, em Jericoara, ali perto. Veridiano, capanga do coronel, matou Amargoso e fugiu. Nada ficou provado contra o coronel. Nos autos, a foto exibe dois soldados carregando o cadáver do negro, em pé. "Tinha de ser de pé, porque naquele tempo, as máquinas fotográficas, de caixote e magnésio para fazer o flash, não enquadravam ninguém deitado de corpo inteiro", diz Chiachiri.
Há uma ordem do imperador Pedro II, assinada pelo presidente do Conselho de Ministros do Império em 1859, Pimenta Bueno, negando clemência a quatro condenados à forca. Um conseguiu fugir. Seviciaram até a morte um negro alforriado. Na véspera da execução, os réus pediram marmelada com vinho como última refeição.
Está no arquivo ainda o testamento de José Francisco Lopes, guia das tropas brasileiras na Retirada da Laguna, na Guerra do Paraguai. Há registro da passagem das tropas do coronel Camisão, que combateram Solano Lopes. E com ele Alfredo dEscragnole du Taunay, autor do romance Inocência, inspirado nas mulheres da região. O poeta Vicente de Carvalho comprou uma fazenda de café em Franca, pensando em descansar. Enganou-se. Quando precisava acusar um criminoso, a Justiça local o nomeava "promotor ad hoc". Ele aparece em alguns processos "obrigado a denunciar" charlatães que agiam na cidade.


