Você está concentrado vendo um filme ou lendo um livro. Alguém chega e diz alguma coisa, mas você não presta atenção direito. De repente, lembra-se disso e pergunta ‘‘você disse alguma coisa?’’, para receber uma resposta zangada de seu interlocutor, que percebe que foi ignorado.
  Esta situação, bastante comum no dia-a-dia, é um exemplo de como diferentes níveis de concentração podem fazer a mente priorizar uma ou outra informação, dependendo de seu direcionamento. É também um exemplo de como a hipnose funciona – tanto um como outro são estados alterados de consciência e percepção.
  Apesar dos preconceitos que ainda existem em relação à utilização da hipnose, a técnica é uma ferramenta para tratar a saúde – física ou mental – que cada vez mais ganha adeptos no Brasil. Pouca gente sabe, mas o Conselho Federal de Medicina regulamentou a prática de ‘‘hipniatria’’ em 1999, considerando, em sua ementa, que a hipnose é ‘‘reconhecida como valiosa prática médica, subsidiária de diagnóstico ou tratamento’’.
  Psicólogos e dentistas são categorias profissionais que podem utilizar a hipnose em seus tratamentos; os conselhos federais dessas profissões também têm a prática regulamentada. O recurso só pode ser empregado após curso de formação.
  A regulamentação é um reconhecimento do valor terapêutico da hipnose, que, longe de ser entretenimento de platéia ou forma de ‘‘dominar’’ a mente de outra pessoa, apenas sugestiona alguém em relação a algo. ‘‘Em momento algum o paciente fica inconsciente. Ele tem total controle sobre si mesmo, tanto que eu não posso obrigá-lo a fazer algo que vá contra a sua moral’’, explica a psicoterapeuta Maria Cristina Orcelli, que trabalha com hipnose e regressão de memória há cinco anos.
  Essa afirmação põe abaixo um dos maiores temores de quem não conhece a hipnose a fundo: o de ‘‘não voltar’’ à realidade. Como não há perda da consciência, a pessoa pode sair do estado hipnótico sempre que desejar, apenas abrindo os olhos – ou seja, em momento algum ela perde o controle sobre si mesma.
  Pela mesma razão, a psicóloga ressalta que ninguém em estado hipnótico é obrigado a aceitar, dizer ou fazer qualquer coisa que não queira. ‘‘As pessoas têm uma noção errada sobre a hipnose, acham que é como os hipnotistas de palco, que gostam de fazer a platéia acreditar que eles têm o controle absoluto sobre os seus sujeitos. Isso não é verdade’’, assevera.
  Uma sessão de hipnose começa com o relaxamento do paciente, colocando-o em estado de ‘‘sono terapêutico’’. Nesse estado pré-hipnótico, baixa-se sua freqüência cardíaca e os níveis das ondas cerebrais. Em uma segunda etapa, são feitas as induções, sugestionamentos e condicionamentos, através do emprego de diversas técnicas. Finalmente, é feita a dehipnose, que é a saída do estado de sono terapêutico.
  Um aliado do profissional, a hipnose tem mostrado resultados satisfatórios em tratamento de depressão, traumas e fobias, no preparo pré-operatório e para amenizar a dor ou até substituir anestesias.

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