Hipnose forense pode ser ferramenta para investigações criminais
Especialista pretende implantar projeto para treinar profissionais da área de segurança
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sexta-feira, 26 de abril de 2019
Especialista pretende implantar projeto para treinar profissionais da área de segurança
Aline Machado Parodi - Grupo Folha 
A hipnose forense poderá, futuramente, ser uma importante ferramenta de apoio nas investigações no País. Essa é a proposta do psicólogo Alaor Cardoso, hipnólogo e perito criminal. O especialista pretende desenvolver um projeto para treinamento de profissionais da área de segurança pública para abordagens mais modernas da prática da hipnose. “Há uma evolução mundial da aplicação da técnica, um novo conceito que abrange um conhecimento mais amplo das pessoas”, afirmou Cardoso, que participou recentemente do Seminário de Psicopatologia Forense e Hipnose Forense, realizado em Londrina pelo Instituto Keynes de Londrina.

Segundo ele, o profissional precisa, mais do que saber extrair informações da vítima, “ler” as expressões para identificar a veracidade das informações. O foco principal da hipnose forense é ajudar as vítimas ou testemunhas a lembrarem de detalhes que possam ficar “escondidos na memória”. “A pessoa pode reviver, referenciar o fato como se estivesse vivendo agora”, explica Cardoso. A técnica só pode ser conduzida por profissionais da saúde: psicólogos, médicos, fisioterapeutas e dentistas.
Cardoso ressalta que o modelo adotado no Brasil – baseado apenas na indução do transe – está ultrapassado. “Existe toda uma comunicação que o corpo estabelece, muitos elementos por trás dessa comunicação. É esse novo modelo que queremos estabelecer de forma que permita que através da entrevista perceba-se se a comunicação é verdadeira, confusa ou falsa”, declara.
Segundo ele, o desconhecimento do assunto é grande e há confusão, inclusive de termologia, e são raros os profissionais que trabalham com a hipnose forense. “Há confusão entre hipnose e transe. A primeira é a técnica e a outra o estado em que a pessoa está hipnotizada. A hipnologia é a ciência que estuda os estados de transe”, explica.
Não há no Brasil nenhum perito criminal habilitado em hipnose forense nos Institutos de Criminalísticas do País. O Paraná tinha o único laboratório especializado dentro do Instituto de Criminalística em Curitiba. O psicólogo Rui Fernando Sampaio, que morreu em 2018, foi perito do Instituto de Criminalística do Paraná por mais de 30 anos e deixou grande contribuição na aceitação das técnicas de indução em meio investigativo.
De acordo com Cardoso, existe a previsão da retomada das atividades do laboratório, mas a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária) preferiu não comentar o assunto e apenas informou, por meio da assessoria de imprensa, que o Instituto de Criminalística está passando por reestruturação e que o assunto é discutido internamente.
PROVAS
A hipnose forense é um recurso que colabora na ilustração do caso, mas não uma prova final. “Ela vai nortear a investigação”, afirma o psicólogo Alaor Cardoso. Segundo ele, ainda existe resistência dos advogados com a efetividade dos resultados obtidos.
A advogada e trainer em Programação Neurolinguística e em Hipnose Clínica, Leila Santana Arias Cunningham, integrante da Comissão de Direito Sistêmico da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em São Paulo, afirma que uma das razões da descrença é por conta das exposições de cenas de truques em palco ou na rua sobre determinados tipos de indução hipnótica.
“Importante lembrar que a hipnose pode ser comparada a um instrumento cirúrgico, como o bisturi, por exemplo. Utiliza- se o bisturi para obter-se acesso ao local pretendido a ser efetuado o procedimento necessário. É o que se passa com o uso da hipnose”, exemplifica.
Segundo Cunningham, o sistema jurídico brasileiro permite todos os meios de provas, desde que não tenham sido obtidas de forma ilícita. Ela acrescenta que o uso da técnica pode ser “de grande valia para a solução de casos complexos”. “A hipnose forense tem trazido resultados confiáveis em suporte a investigações criminais e tribunais em alguns países como os Estados Unidos.
Ela cita o caso “O Povo versus Schoefeld”, de 1980, em Chowchilla, na Califórnia. Em estado hipnótico, um motorista de ônibus fez o retrato falado perfeito do sequestrador e pôde lembrar a placa do carro que interceptou o veículo, levando os sequestradores à condenação e prisão”, relatou.
Em 1997, o trabalho do psicólogo Rui Fernando Sampaio auxiliou na elaboração do retrato falado do suspeito de assassinato do empresário Júlio César Marino. O empresário foi morto com três tiros a queima-roupa em dezembro de 1997, na casa dele, na área central de Londrina.
O perito criminal Luciano Bucharles, do Instituto de Criminalística de Londrina, trabalhou com Sampaio neste e em outros casos. “Eu o ajudava nos casos, mas quem fazia o trabalho era ele. Era uma ferramenta (hipnose) que ajudava muito”, comentou Bucharles, que lamentou a extinção do serviço, mas comentou que não há interesse dos criminalistas na técnica pela complexidade da atividade.


