Lígia Formenti
Agência Estado
De São Paulo
Uma pesquisa que acaba de ser concluída pelo Departamento de Hipertensão do Hospital das Clínicas de São Paulo revela que apenas 23% dos pacientes com pressão alta seguem à risca as recomendações médicas. O estudo foi desenvolvido ao longo do último ano com 1.200 hipertensos atendidos no serviço. O coordenador do trabalho, o professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Décio Mion Júnior, afirma que os resultados obtidos são semelhantes aos registrados em outros países.
‘‘Por mais esforço que se faça, não conseguimos ainda diminuir o alto índice de abandono ao tratamento’’, conta. ‘‘Esse é o nosso maior desafio atualmente’’. Os hipertensos apresentam risco duas vezes maior de ter enfarte e quatro vezes maior de ter um derrame do que pessoas com pressão normal. Mion informa que a desistência do tratamento ocorre com todos os tipos de paciente. Ao contrário do que possa parecer, a questão econômica, o nível de informação sobre a doença ou a escolaridade em nada influenciam o comportamento do hipertenso: ‘‘Nem mesmo o preço do remédio influencia’’.
A falta de um perfil definido leva os especialistas a acreditarem que a adesão depende, principalmente, das características emocionais do paciente. Mas não é só. ‘‘Quando o tratamento é desempenhado por uma equipe multidisciplinar, a adesão ao tratamento é maior’’.
O diretor do Instituto do Coração, José Antônio Ramirez, também considera indispensável o tratamento com equipe multidisciplinar. ‘‘É necessário fazer um acompanhamento preciso, para tentar contornar efeitos colaterais dos remédios’’, conta. Ramirez lembra que alguns pacientes podem apresentar dificuldades de ereção e, algumas mulheres, diminuição da libido. ‘‘Quando isso ocorre, eles geralmente deixam de usar o remédio, principalmente porque a hipertensão não traz nenhum sintoma’’.
Agora, o ambulatório de hipertensão está desenvolvendo um estudo para verificar a eficácia dos grupos multidisciplinares, com 500 pacientes. Metade dos hipertensos terá tratamento convencional. O restante participará de reuniões periódicas com vários profissionais. Além disso, eles receberão apoio de um serviço de suporte, feito pelo Laboratório Biosintética. No serviço, já realizado gratuitamente para hipertensos cadastrados, pacientes recebem telefonemas de profissionais para verificar como anda o tratamento e esclarecer dúvidas que possam existir. ‘‘Trabalhos semelhantes já foram feitos com pessoas com colesterol alto e mostraram um resultado bastante positivo’’, afirma Mion.

mockup