Brasília, 05 (AE) - Pressionado por parlamentares da Comissão de Constituição de Justiça da Câmara (CCJ), o deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) reconheceu hoje a autoria de vários bilhetes a ele apresentados, nos quais pede livre trânsito para narcotraficantes, contrabandistas, homicidas, fraudadores do Acre. Hildebrando assumiu a postura de acusador e disse que todos os deputados da Câmara são iguais a ele, ao se utilizarem de expedientes ilegais em campanha. Alguns criminosos tinham bilhetes plastificados.
O traficante e homicida Firmino dos Santos Lira ainda estava respondendo à sentença de seis anos de prisão quando recebeu em 1994 um bilhete de Hildebrando, que dizia: "Irmãos da PM do Acre, facilitem a passagem do Firmino". Hildebrando reconheceu que assinou o bilhete. "Nenhum político aqui é diferente do deputado Hildebrando", disse o deputado do Acre. "Não se ganha eleição aqui com sorrisos não."
O traficante José Ribamar Feitosa, ex-empregado de Hildebrando, já tinha sido condenado por narcotráfico quando também recebeu um bilhete que lhe dava livre passagem pelas barreiras da PM, muitas delas na fronteira do Estado com a Bolívia e o Peru, por onde entra grande parte da droga no País. "O bandido não tem placa na testa", disse Hildebrando. "Fiz isso também em guardanapos", disse o deputado, que ontem (04) afirmou ter escrito bilhetes em papel higiênico.
Alguns bilhetes de Hildebrando foram entregues plastificados aos bandidos, que os utilizavam por longos períodos. Estes bilhetes especiais eram plastificados com a dobra no canto, o que para os parlamentares demonstra terem sido entregues em mãos. O traficante e homicida Walmir Pereira Matos é um dos que receberam o bilhete plastificado. O contrabandista e fraudador José Genoíno de Souza também ganhou um bilhete de Hildebrando.

Os traficantes Francisco Antônio Andrade da Silva e Francisco Barbosa também ganharam bilhetes de livre trânsito do deputado. Todos os originais dos bilhetes foram apresentados hoje a Hildebrando pelo deputado Robson Tuma (PFL-SP). Ao ver tantas provas em sua frente, o deputado do Acre confirmou: "Os bilhetes são verdadeiros", disse. "Reconheço como sendo minha assinatura." Hildebrando tentou desqualificar a atuação de Robson Tuma e ironizou: "Fico feliz em saber que há neste Parlamento um deputado perfeito, sem falhas."
Todos os bilhetes foram entregues ao relator do pedido de licença do Supremo Tribunal Federal (STF) para processar Hildebrando, deputado Inaldo Leitão (PMDB-PB), que vai incorporar os documentos no voto da concessão da licença.
O deputado Moroni Torgan (PSDB-CE), relator da CPI do Narcotráfico, disse que vários policiais militares pediram, em nome de Hildebrando, a libertação de traficantes presos no Acre. Hildebrando voltou a responder com ironia. "O que posso fazer se usavam meu nome?". Moroni Torgan disse que as provas são evidentes e que a cassação de Hildebrando só depende agora de decisão da presidência da Câmara, onde a CPI do Narcotráfico já havia apresentado pedido no final de julho.
Hoje, Hildebrando quebrou o decoro parlamentar durante o próprio depoimento ao acusar todos os parlamentares da Câmara de utilizar recursos ilícitos em campanhas e ao chamar de "corrupto" e "canalha" o ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva Filho, que denunciou os crimes do deputado quando exercia a função de presidente do Tribunal de Justiça do Acre. Gercino entrou hoje com representação na Câmara e no Ministério Público.
Há vários depoimentos de testemunhas denunciando os crimes de Hildebrando, mas ele acusa a Polícia Federal de "forjar" provas. Hildebrando disse que vem sofrendo fortes dores de cabeça, devido às pressões. Nenhum dos parlamentares que vinham defendendo Hildebrando se inscreveram para falar hoje.

mockup