Brasília, 04 (AE) - Sob pressão dos parlamentares, o deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) acabou assumindo crimes que cometeu nos últimos anos, ao prestar depoimento hoje na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. O parlamentar contou que resistiu a um mandado de busca e apreensão com uma escopeta sem registro e sem porte de arma, utilizou funcionários do governo do Acre em sua campanha eleitoral e assinou bilhetes autorizando motoristas a passarem por barreiras, inclusive traficantes.
A avaliação de alguns parlamentares que acompanharam o depoimento de Hildebrando é que ele acabou complicando ainda mais sua situação e que já há elementos para pedir cassação. O relator do pedido do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar Hildebrando, o deputado Inaldo Leitão (PMDB-PB), deverá entregar seu parecer na próxima quarta-feira propondo que a licença seja concedida. Inaldo disse que Hildebrando fez mais revelações do que esperava. O depoimento de Hildebrando, suspenso hoje para votações no plenário, continua amanhã (05).
A parte do depoimento considerada pelos parlamentares mais comprometedora foi quando o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, deputado Magno Malta (PPB-ES), disse a Hildebrando que já dispunha de vários bilhetes assinados por ele, pedindo à polícia para "facilitar a passagem" de pessoas. A CPI do Narcotráfico dispõe de cópias de bilhetes de Hildebrando beneficiando alguns criminosos, que teriam sido soltos pelo parlamentar. "Há milhares desses bilhetes, deputado", disse o parlamentar do Acre.
Hildebrando reconheceu que errou ao pedir a passagem de veículos sem documentação e equipamentos em barreiras, mas que já fez este tipo de favor até para filhos de autoridades do governo do Estado. O deputado Robson Tuma (PFL-SP) perguntou por que Hildebrando deu bilhetes também a traficantes e este respondeu que não tinha como reconhecer todos os beneficiados com estas ordens. "O bandido não tem placa na testa". O próprio Hildebrando deu uma dimensão do quanto este recurso do bilhete foi vulgarizado. "Fiz isso até em papel higiênico."
O próprio Hildebrando ampliou o leque de acusações que existiam contra ele. O parlamentar era acusado de resistir a um mandado de busca e apreensão da Justiça Eleitoral em sua residência, em Rio Branco, na véspera da eleição do ano passado, se utilizando de um revólver Smith Wesson calibre 38. Hildebrando confirmou que resistiu às ordens da Polícia Federal, se utilizando de uma escopeta calibre 12 de canos cerrados, de grande poder de destruição.
O revólver e a escopeta não tinham registros e nem o deputado tinha porte destas duas armas. "Era uma espingarda velha", disse Hildebrando, "utilizada por colonos". O relator da CPI do Narcotráfico, deputado Moroni Torgan (PSDB-CE), que vem tentando levantar provas sobre a participação de Hildebrando no esquadrão da morte que eliminou dezenas de pessoas no Acre, inclusive traficantes, perguntou sobre a origem das armas. "Fica difícil informar a origem", respondeu Hildebrando. O parlamentar do Acre revelou ainda a participação em outros crimes. Ele disse que o sargento PM Eurico Moreira Lima e o soldado PM Reginaldo Rocha de Souza trabalharam em sua campanha, cedidos pelo governador Orleir Cameli. "Os dois eram remunerados pelo governador", disse Hildebrando. Ao mesmo tempo em que disse ter sido o representante do governador na Assembléia Legislativa do Acre, Hildebrando declarou que Orleir Cameli é "corrupto". Hildebrando disse que o sargento Alex, apontado como traficante e membro do esquadrão da morte, também era seu auxiliar.
Hildebrando não esclareceu todas as dúvidas dos parlamentares sobre seu esquema de sustentação na Câmara, para não ser cassado, mas afirmou possuir "notas de solidariedade" do PMDB, PPB e seu PFL no Acre. No depoimento reservado à CPI do Narcotráfico na terça-feira, o detetive Francisco Raimundo Custódio Pessoa disse que Hildebrando é "protegido" do governador do Amazonas, Amazonino Mendes e teria "esquemas" com ele. A CPI já está investigando estes esquemas.
O presidente da CCJ, deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), disse que marcou o reinício do depoimento de Hildebrando para hoje por considerar que "a questão é muito grave". O deputado Antônio Biscaia (PT-RJ) disse que há várias provas para pedir a cassação de Hildebrando. Vários outros parlamentares de oposição se pronunciaram em favor da cassação de Hildebrando.
O ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva Filho, ex-presidente do Tribunal de Justiça do Acre que denunciou o esquadrão da morte no Estado, foi chamado várias vezes de "canalha" por Hildebrando, no depoimento de hoje, e vai apresentar amanhã (05) à Corregedoria da Câmara e ao Ministério Público representações contra o deputado do Acre. O procurador da República Luiz Francisco de Souza, disse que Hildebrando poderá ser enquadrado em crime eleitoral, porte ilegal de armas, corrupção, abuso de poder, injúria e prevaricação.

mockup