Herança da didatura continua na vida do Brasil 35 anos após golpe
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terça-feira, 30 de março de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 30 (AE) - O Brasil vive um tempo de democracia, 35 anos depois do golpe militar de 31 de março de 1964, mas a herança daqueles anos ainda permanece na vida política e institucional brasileira.
A fragilização dos partidos, o descrédito na política e nos políticos e a manutenção de um modelo tecnocrático de formulação das estratégias econômicas são, em grande parte, consequências daqueles anos.
"Sou o único homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencandeou uma revolução de pijama". A frase escrita no diário do general Olímpio Mourão Filho, comandante da Região Militar de Juiz de Fora (MG), às 5 horas de 31 de março de 1964, marcou o início da didatura militar. Mourão Filho, de pijama e roupão, como escreveu no diário, foi quem deflagrou, de casa, o movimento militar que culminaria na deposição do presidente João Goulart, o "Jango".
Segundo a cientista política Maria Celina DAraújo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o regime militar foi o grande responsável pela consolidação de uma cultura anti-democrática iniciada pelo ditador Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, entre 1937 e 1940. "Era uma concepção de desprezo pela representação política e pelas instituições democráticas", afirma. "A idéia, ainda em vigor hoje, de que a política é ruim e os políticos, um estorvo, quando, na verdade, a política é a condição básica da vida democrática." O historiador Marcelo Badaró, da Universidade Federal Fluminense (UFF), completa a análise de Maria Celina. Segundo ele, além do desprezo pelo sistema político, os governos militares conseguiram cristalizar no imaginário nacional a idéia de que apenas os técnicos podem, de fato, formular estratégias econômicas para o desenvolvimento do País. "Essas estratégias não podem entrar no debate político
são da seara restrita dos técnicos", afirma. Para Badaró, é como se esses técnicos, ingenuamente, não fossem movidos por questões político-ideológicas.
"Não é o caso; basta ver os exemplos de Delfim Neto (atual deputado pelo PPB), Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen, que nunca esconderam suas ligações políticas", lembra. O historiador afirma que a exclusão da economia do debate político nacional - tanto no Congresso como na sociedade - surgiu com a formação de uma burocracia estatal, implementada por Vargas, e ganhou corpo na gestão do presidente Juscelino Kubtischek, por meio do governo paralelo, que reunia um grupo de notáveis, com a finalidade exclusiva de traçar metas econômicas para o País. "Essa separação definitiva, porém, só se consolidou no regime militar", completa.
A herança da didatura, porém, trouxe ainda implicações na formação partidária brasileira. Para o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), a ruptura de um longo período democrático, provocada pelo golpe, afetou profundamente a natureza dos partidos. "Hoje, a fragilização partidária a que assistimos se deve, em parte, a essa ruptura", acrescenta. De acordo com Nicolau, a reunião de forças políticas diferentes num sistema bipartidário alterou a formação partidária, abrindo caminho para a personalização na política.


