Hepatites matam mais que Aids e têm menos verba
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sábado, 14 de janeiro de 2006
Ricardo Westin<br>Agência Estado 
São Paulo- Duas comparações. As hepatites B e C contaminam sete vezes mais brasileiros do que a Aids e, por isso, matam mais. No entanto, a Aids tem muito mais visibilidade: recebe 13 vezes mais dinheiro do governo para campanhas educativas do que as hepatites.
Duas conclusões. ''As hepatites são um dos maiores problemas de saúde pública da humanidade'', diz o hepatologista Hoel Sette, do Hospital das Clínicas da USP. ''O governo tem no colo uma bomba viral. Se nada for feito de imediato, o Brasil presenciará o maior genocídio da nossa história'', acrescenta Carlos Varaldo, presidente do Grupo Otimismo, ONG de apoio a doentes de hepatite C.
A desvantagem das hepatites não termina aí. O Ministério da Saúde não tem estatísticas de quantas pessoas estão infectadas. O que há são cálculos aproximados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 2 milhões de brasileiros sejam portadores do vírus B e outros 3 milhões, do vírus C. Também não existem dados de mortes decorrentes das hepatites. Em relação ao HIV, os números do governo são exatos: 600 mil portadores do vírus e 10,9 mil mortes no ano passado.
Em 2003, o ministério deu início ao mais amplo estudo sobre as hepatites A, B e C já feito no Brasil. A expectativa era de que o inquérito, nas 27 capitais, fosse concluído até o fim do mês. Até agora, porém, nem metade do trabalho foi feito. Os únicos dados disponíveis são das regiões Nordeste e Centro-Oeste, onde cerca de 0,5% das pessoas entre 20 e 69 anos têm hepatite B e aproximadamente 1,8% têm hepatite C. A conclusão do estudo domiciliar foi empurrada para o fim do ano.
A situação é semelhante em relação ao número de pessoas que estão se tratando pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O ministério diz que 4.500 doentes de hepatite C (dos 3 milhões) estão em tratamento hoje, mas não tem à mão informações sobre a hepatite B. De qualquer forma, o número certamente também é uma pequena fração dos estimados 2 milhões de doentes.
O Ministério da Saúde admite que não teria como arcar com os gastos se todos os doentes procurassem o SUS. Os remédios para uma pessoa podem custar R$ 45 mil por ano.
Em relação às campanhas de prevenção, o governo destinou em 2005 R$ 14 milhões à Aids. A hepatite recebeu R$ 1 milhão, verba suficiente apenas para anúncios em rádios e em TVs educativas.
A coordenadora do Programa Nacional de Hepatites Virais, Gerusa Figueiredo, lamenta que as hepatites, embora endêmicas, não recebam a devida atenção. ''A Aids surgiu no início da década de 80 e atingiu principalmente os homossexuais, que se organizaram rapidamente. Já a hepatite C foi identificada depois e as pessoas só se organizaram no fim dos anos 90. É um movimento recente, que aos poucos vai ganhando força'', diz.


