Treze milhões de brasileiros (8% da população do País), entre um e 40 anos, já tiveram contato com o vírus da hepatite B e, pelo menos, 3,3 milhões desse total (2%) se tornaram portadores da doença. Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita, realizada no ano passado, que será divulgada hoje no 1º Fórum de Vacinação da Terceira Idade, no Rio, pelo pesquisador e professor de doenças infecciosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edmilson Migowski.
Foram entrevistadas 3.654 pessoas de três capitais brasileiras - Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza - e do norte do Amazonas. A pesquisa quantitativa foi coordenada pelo Laboratório Smithklein em parceria com universidades e hospitais públicos. Transmitido pelo beijo, na prática odontológica, no ato sexual ou por uma simples mordida, o vírus da hepatite B, segundo Migowski, é cerca de cem vezes mais contagioso do que o do HIV. ‘‘Usar camisinha previne contra aids, mas não contra a hepatite B, que pode ser evitada com vacina’’, afirma Migowski.
O pesquisador ressalta que, em 10% dos casos, o vírus pode provocar o surgimento de câncer de fígado, cirrose hepática ou na rara e perigosa hepatite D. ‘‘Poucas pessoas sabem disso, mas muitas dessas doenças têm como causa primeira a hepatite B’’, diz. O trabalho mostra que o norte do Amazonas, apesar de já ter implantado uma campanha universal de vacinação contra a doença, ainda lidera as estatísticas nacionais de casos da doença.
Dos 613 pessoas entrevistadas naquela região, 21,4% apresentaram testes positivos e 5% delas se transformaram em portadores. O Rio de Janeiro também chama a atenção pelo alto índice de contaminação. Na segunda maior capital do País, 5,5% dos cariocas já tiveram contato com a doença e 2% desse total estão infectados. ‘‘Se não fizermos nada, dentro de alguns anos, o Rio poderá chegar a um grau de contaminação igual ao do Amazonas, que só tem equivalente no mundo no sudeste asiático’’, compara.
Em Porto Alegre, 461 pessoas foram examinadas e 7,6% mostraram já ter tido contato com o vírus, dos quais 2% desenvolveram a doença. Fortaleza foi a cidade com o menor índice de contaminação: apenas 0,4% dos 489 entrevistados são portadores de 1,2% do total que apresentou resultado de contato positivo. - A pesquisa mostrou ainda que os próprios pediatras podem se transformar em vetores de transmissão da patologia. Cinquenta por cento dos 475 médicos entrevistados admitiram que não foram vacinados contra a hepatite B e sequer deram orientação a seus pacientes para que se prevenissem.
A idéia de Migowski é sensibilizar o Ministério da Saúde para que promova uma campanha nacional de vacinação contra a doença entre adolescentes e adultos, como é feita hoje em crianças com menos de um ano. ‘‘A pesquisa revelou que o índice de incidência de hepatite aumenta no público entre 14 e 40 anos, justamente por causa do contato sexual’’, adianta.
Segundo o professor da UFRJ, imunização à hepatite B entre jovens e adultos poderia ser feita em conjunto com a campanha de vacinação contra gripe e pneumonia em idosos acima de 65 anos, que será lançada em abril pelo ministério. Migowski centrou seu foco de ação no grupo de idosos, porque, segundo o médico, eles ‘‘se mobilizam mais facilmente e, geralmente, são mais informados e indignados’’.

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