São Paulo, 06 (AE) - A Fundação Pró-Sangue, o hemocentro do Estado de São Paulo, vai realizar estudos para detectar a presença na população brasileira de um vírus recém-descoberto da hepatite. O novo vírus, chamado de Sen-V, foi identificado este ano pelo laboratório italiano DiaSorin.
Segundo Dalton Chamone, presidente da Fundação Pró-Sangue, o vírus poderia ser responsável por uma forma de hepatite cujas causas até agora são desconhecidas. "Estamos à procura desse vírus há quase uma década", disse. Ele informou que 10% a 20% de todas as hepatites não têm origem conhecida. Cientistas já conseguiram isolar, até o momento, os vírus das hepatites A, B, C, D e E.
O Sen-V foi observado em um paciente italiano dependente de drogas e portador do HIV. Após isolar o vírus e mapear seu material genético, o coordenador da pesquisa no DiaSorin, Daniele Primi, procurou o Sen-V em outros pacientes. Dos 232 pacientes investigados que não apresentavam problemas hepáticos, 0,9% tinham o vírus. Já entre os 130 dependentes de drogas analisados, 21,5% apresentaram o Sen-V. "Esses números nos levam a acreditar que o vírus seja transmitido pelo sangue", afirmou Chamone, estimando que 1% da população brasileira tenha o vírus. O vírus foi identificado em cerca de 80% dos pacientes estudados pela DiaSorin.
De acordo com a pesquisa realizada pelo laboratório, o Sen-V também foi encontrado em associação com a hepatite B e C, o que sugere que esse vírus está presente no corpo nas mesmas condições que propiciaram a infecção pelos agentes já conhecidos.
O médico informou que o hemocentro, um centro de referência em derivados de sangue para a América Latina, tem guardado amostras de pacientes que apresentaram um quadro clínico de hepatite de causa ainda desconhecida. "Vamos testar o Sen-V nesses pacientes para saber se esse é, de fato, o vírus responsável pela doença", explicou. Para comprovar se o Sen-V é o causador desse tipo de hepatite, o estudo precisa ser reproduzido em outros centros. Os pesquisadores precisam encontrar o Sen-V em amostras de pacientes com a hepatite desconhecida. "É isso que pretendemos fazer aqui", disse Chamone. "Estamos esperando a DiaSorin liberar o material genético do Sen-V para começar os estudos."
Para testar o vírus, o especialitsa vai usar um método chamado PCR (Reação de Polimerase em Cadeia), que identifica parte do material genético do vírus na amostra. Esse material pertence ao laboratório DiaSorin. Para programar o teste, Chamone precisa desse material.
Ele antecipou que o laboratório deve patentear o vírus, o que exigiria um pagamento para usar o Sen-V para testes. Segundo Chamone, uma prova de que há essa possibilidade de patenteamento desse produto foi a maneira como a pesquisa foi divulgada: o estudo foi publicado no New York Times, no dia 20, antes de ter saído em uma revista médica. "Isso é muito irregular."
Caso esse vírus seja, comprovadamente, o causador da hepatite desconhecida, ele assumirá a letra F. A última grande descoberta nessa área foi o vírus da hepatite C, em 1989. Ao contrário da hepatite C, que provoca danos ao fígado ao longo do tempo, acredita-se que o Sen-V cause uma alteração na enzima transaminase que não seria tão agressiva quanto às outras formas da doença.
A hepatite C já faz parte da rotina de exames de triagem do sangue de doadores no hemocentro. "Depois do estudo que será realizado aqui, poderemos saber se há ou não a necessidade de incluir exames para o Sen-V na rotina", disse.

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