Nova York (AE-NEWSWEEK) - Até que enfim ele pôde pilheriar. Na "Carta de Key West" para a revista Esquire em 1935, Ernest Hemingway informou que turistas sitiavam sua casa. "É tudo muito lisonjeiro para o ego de seu correspondente que fica inchado por pouca coisa", escreveu ele, "mas muito ruim para a criação." Hoje, embora esteja morto há quase 40 anos, Hemingway ainda é o escritor americano mais conhecido - e as pessoas não param de invadir sua privacidade. Ele tem durado mais que os milhares de imitadores (discípulos sérios e participantes de concursos Mau Hemingway) e também os seus mais duros críticos. Até as feministas acham-no mais difícil de odiar agora, por sabrem das fantasias pró-mulheres que havia por trás da violência do macho; se ele ficar ainda mais na moda, vão chamá-lo de "transgressivo". Ele foi mentor indireto de Ralph Ellison, Norman Mailer e Raymond Carver, e escritores tão diversos como Joan Didion, Pete Hamill, Amy Hempel, Denis Johnson, Elmore Leonard e Robert Stone continuam refletindo sua influência.
E, estranhamente, ele continua lançando livros. Em 21 de julho, centésimo aniversário do nascimento de Hemingway, a Scribners vai lançar o último de seus grandes originais inacabados: uma memória-ficção de seu safári de 1953 na áfrica, organizada por seu filho do meio, Patrick, de 70 anos, que deu à obra um título bem à Hemingway: "True at First Light". Desde o lançamento de "A Moveable Feast", em 1964 - ao qual Hemingway havia canhestramente dado o título de "The Eye and the Ear" -, seus pósteros continuaram organizando e publicando obras que ele não terminou. Alguns admiradores se perturbam, achando isto uma traição maior do que a revelação feita pela última mulher de Hemingway, Mary, de que ele gostava de ser "as filhas dela" quando ambos brincavam de faz-de-conta na cama. Na melhor das hipóteses, podemos imaginá-lo amuado e conformado. "É terrivelmente duro para Scott publicar algo inacabado", escreveu Hemingway para o editor dele e de Fitzgerald, Max Perkins, quando o romance póstumo de Scott, "The Last Tycoon", foi publicado, "mas suponho que os vermes não se importarão."
Os festejos do centenário de Hemingway começaram em abril, com um simpósio na Biblioteca John F. Kennedy, de Boston, que abriga o grosso de seus originais e cartas; todos os seus filhos
Jack, Patrick e Gregory, compareceram, com quatro de seus confrades também ganhadores do Prêmio Nobel, entre eles Saul Bellow e Nadine Gordimer. Esperem para julho as costumeiras festanças impertinentes em Key West: concursos de sósias e de comilança, torneios de queda de braço. Mas a festa de arromba que marcará o aniversário vai ocorrer em sua cidade natal, Oak Park, Estado de Illinois: oito dias de filmes, excursões, exposições, palestras, até dança interpretativa. Os admiradores de Hemingway poderão conhecer Patrick, participar de um jantar peripatético numa série de restaurantes e assistir à primeira corrida de touros em Oak Park.
E, quando a festa terminar, ainda vamos ter o livro. Patrick cortou um terço do original, e grande parte dele parece Hemingway médio - com algumas das passagens mais engraçadas por ele escritas. A história nunca tem solução, mas lemos sobre a caça ao leão e sobre um triângulo amoroso: um escritor chamado Ernest Hemingway, sua mulher, Mary, e Debba, uma jovem nativa "impudente". O leão que Mary baleia era de verdade: ele é agora um tapete na Biblioteca Kennedy -, mas dificilmente o valentão mítico do texto, de cabeça "enorme e escura", de corpo "pesado, grande e comprido". Debba também existiu, mas parece que o romance amoroso foi imaginado. Esperemos que quando Debba se aconchega "para imprimir os entalhes do coldre (de Hemingway) na coxa dela" seja só um meio de importunar os freudianos.
E Patrick, que passou anos na áfrica sendo guia de safáris, diz que a reputação de Hemingway "como especialista em áfrica foi um pouco exagerada. Isto é bom de ler, mas quanto ao modo de caçar aqueles animais..." Hemingway escreveu cerca de 800 páginas deste livro em 1955 e 1956 e o deixou de lado - no meio de uma oração - para ajudar nas sequências da pesca de merlim para o filme "O Velho e o Mar". A Sports Illustrated publicou a quarta parte dele em série em 1971 e 1972, mas a obra passou geralmente despercebida. Já em 1999 sua publicação parece um grande acontecimento literário. Além de seus prazeres intrínsecos, o livro abre uma nova janela para o mundo emocionante, desconcertante e transbordante desta última obra inacabada, na qual ele explorou as fronteiras entre negros e brancos, entre homens e mulheres, entre fato e ficção.
Nas duas décadas que transcorreram entre "Por quem os Sinos Dobram" (1940) e seu suicídio em 1961, Hemingway publicou apenas dois livros: o tão ignorado romance "Across the River e Into the Trees" e a novela popular "O Homem e o Mar". Mas escreveu milhares de páginas às quais pareceu não conseguir dar a forma final ou cujo enredo ele não conseguiu solucionar. Hemingway extraiu "O Velho e o Mar" de uma obra mais longa: grande parte desta foi reorganizada e publicada em 1970 sob o título de "Islands in the Stream". Ele também trabalhou num romance desajeitado, obssessivo e carregado de sensualidade, ao qual chamou "The Garden of Eden", sobre dois casais de amantes andróginos; uma versão radicalmente cortada desse calhamaço de 2 mil páginas veio à luz em 1968.
O que havia de errado nele? Digam o que quiserem. Hemingway bebia muito, seu peso aumentava e diminuía, ele havia tido uma série de ferimentos graves na cabeça e suas oscilações de humor pareciam as de um maníaco-depressivo. Patrick acredita que seu pai "viveu num ritmo acima do normal. Acho que quando ele tinha 60 anos já estava no fim da vida. Sabemos por meio de pessoas que viram seus últimos dias que ele tinha uma série de problemas mentais. Muito sérios. E no entanto ele ainda estava escrevendo demais seis meses antes de morrer." Os estudiosos ainda não podem examinar o original sobre a áfrica, mas comparando a versão de Patrick com a da Sports Illustrated qualquer um pode perceber que ele fez bem ao velho. Produziu uma obra divertida mas superlonga sobre alcoólatras regenerados, muito mexerico e algumas caçadas repetitivas. Patrick trabalhou sob tensão entre Hemingway e Mary. A obra contém uma cena cômica em que Mary ensaia um discurso que escreveu advertindo outras mulheres - enquanto Hemingway a aplaude. "É um belo discurso que você torna mais claro e veemente de cada vez", diz ele. "É um discurso verdadeiro", responde ela. "Acredito em cada palavra. Mas tentei tirar dele toda amargura e vulgaridade." E a vemos pegar uma árvore de Natal - que ninguém lhe diz ser um gigantesco pé de maconha.
Claro que em seus melhores dias Hemingway produzia de modo brilhante.
Mas devia outra pessoa - mesmo seu filho - fazer com que ele se pareça mais consigo? Obra incompleta devia ser publicada? Quando a Scribners anunciou o lançamento de "True at First Light", Joan Didion escreveu para a New Yorker um artigo no qual disse que os trechos publicados em Sports Illustrated eram "palavras anotadas, mas ainda não escritas".
Também criticou os livros póstumos, afirmando que eram "a criação sistemática de um produto vendável ... que tende a ofuscar o conjunto da obra publicada por Hemingway em vida". Não se pode falar mal de Patrick por haver irritado Didion. Ele a admira, acha que ela fez uma boa defesa de seu argumento e se nega a promover demais o livro. "Não vou afirmar que esta é a maior obra de Hemingway, certo?" Além do dinheiro (dividido entre os irmãos), Patrick quer o livro na praça porque adorava a áfrica. "Aquela vida terminou para mim", diz, "mas fico contente porque ele (Hemingway) encarnava parte dela. Não sei por que a Scribners está publicando o livro. É problema deles. Mas meu interesse pela áfrica vai além de Ernest Hemingway." Por estranho paradoxo, os menos ligados a Hemingway talvez se preocupem mais: parece voyeurismo ler o que um escritor não quer que vejamos. Ainda assim, autores escrevem para ser lidos - e afinal de contas o que um escritor morto tem a perder? As coisas boas serão admiradas: as ruins serão ignoradas. De qualquer forma, é tudo conversa acadêmica. Quem se negaria a chance de olhar por cima do ombro de Hemingway enquanto ele estivesse trabalhando e a imaginar o que ele podia ter feito?
Rose Marie Burwell, professora na Universidade Northern Illinois que se especializou nas obras inacabadas do fim da vida de Hemingway, não considera "True at First Light" um desastre patológico: vê na obra uma incursão ousada, embora frustrada, na narrativa pós-moderna e no estranho país das obsessões de Hemingway.
Burwell acredita que Hemingway talvez tenha abandonado suas últimas obras para não enfrentar - e expor a leitores e críticos - suas ansiedades mais profundas. "Dizer isto é muito presunçoso e melodramático, portanto perdoe-me", acrescentou ela, "mas acho que se ele tivesse conseguido terminar The Garden of Eden talvez conseguisse continuar vivendo." O filho de Hemingway adota um ponto de vista menos romântico. "Não acho que se ele tivesse vivido até os 80 anos iríamos ter muito mais do que temos", diz Patrick Hemingway. "Acho que tudo estava acabado quando ele morreu. E penso que é preciso julgá-lo com base no que ele fez. É preciso contentar-se com o que aí está." Patrick e Didion não estão de acordo quanto às pessoas que deviam ver a obra inteira. Mas, como Patrick e seus irmãos têm os direitos autorais, ele sai ganhando. Nós também saímos. E Hemingway? Não se ouve nenhuma palavra dele.

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