Helipontos desativados refletem período de verticalização
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sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Vítor Ogawa<br> Reportagem Local 

Londrina viveu uma expansão rápida na construção civil entre os anos 1970 e 1990, período em que também houve um cenário de hiperinflação. A construção civil era uma das alternativas de investimento mais seguras, já que a moeda nacional perdia valor rapidamente. Foi nesse contexto de verticalização da cidade que surgiram dois empreendimentos inusitados, que apresentaram como atrativos helipontos disponíveis aos moradores: os edifícios Albamar, na rua Maranhão; e Barão do Rio Branco, na rua Pará, ambos no Centro.
Esse tipo de infraestrutura era novidade para a época porque ainda não havia nenhum proprietário de helicóptero na cidade. Também não havia nenhuma aeronave do tipo em Londrina quando os empreendimentos foram lançados, a não ser quando estavam de passagem pela cidade.
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Até o final dos anos 1960, Londrina contava com apenas 36 edifícios. Na década de 1970, foram construídos 131 prédios com quatro ou mais pavimentos. Já na década de 1980 o número de prédios em construção com essa característica subiu para 939 e na década de 1990, chegou a 600. Foi o período áureo de verticalização da cidade, antes da fase de expansão da Gleba Palhano (zona sul), nos últimos anos. Pela necessidade de suportar o peso das aeronaves, um heliponto não pode ser instalado em qualquer prédio. ,

Até a década de 1960, os pilares da última laje eram menores, o que exigia reforço para se criar um heliponto. De lá para cá, no entanto, deixaram de ter variação, por questão de economia. De qualquer forma, é necessário fazer uma análise estrutural do prédio para implantar um heliponto em prédios antigos. Por isso, desde então, em todo o Brasil, a aposta para a implantação desses pontos de pouso para helicópteros foram prédios novos.
Um anúncio publicitário publicado em 1978, na Folha de Londrina, destacava a construção do edifício Albamar, que recebeu esse nome em homenagem a um restaurante histórico do Rio de Janeiro. Nesse anúncio foi evidenciada a construção do heliponto na edificação, que na época elogiava a localização em ponto nobre da cidade. A rua Maranhão é a continuação da avenida Paraná, que foi valorizada na época com a implantação do Calçadão.

A reportagem esteve no Albamar para verificar as condições atuais do heliponto. A estrutura quadrada de concreto é claramente reforçada para suportar o peso de aeronaves. A pista de pouso fica um pouco acima de onde havia uma piscina e a entrada no espaço é restrita ao proprietário do apartamento do último andar do prédio. O heliponto nunca foi utilizado. Atualmente, a laje é usada apenas para fixar antenas de TV. A ata do condomínio indica que os primeiros moradores entraram na edificação em 1984, mas não restam moradores daquele início.
Um dos proprietários mais antigos a permanecer no prédio é o caminhoneiro aposentado Luiz Brentam Santin, 82. "Graças a Deus esse heliponto nunca chegou a funcionar, mas não por causa do barulho. Se ele funcionasse é porque provavelmente estaria ocorrendo um caso grave, de atendimento médico ou de incêndio", aponta. Para ele, destinar a área do antigo heliponto para a instalação das antenas é uma finalidade melhor para a estrutura. "Receber sinal de televisão é melhor que receber helicópteros. Isso indica que não tem problema algum no prédio", destaca.
Santin conta que comprou o apartamento porque a esposa sempre quis morar no Centro de Londrina. "A minha finada esposa sempre dizia que queria morar 'para cima' da antiga linha do trem. Ela morava na rua São Salvador (Vila Ziober, próximo ao colégio Marcelino Champagnat)", relata.
A porteira do prédio, Roseli Rodrigues dos Santos, 42, trabalha ali há oito anos e soube do heliponto logo que foi contratada. "Já subi no heliponto várias vezes para olhar a caixa d'água. Eu nunca vi um helicóptero pousar aqui. É um equipamento importante se tiver emergência médica", diz.
Na rua Pará, próximo da avenida Higienópolis, fica o edifício Barão do Rio Branco, que começou a ser construído em 1980 e foi concluído dois anos depois com a previsão de ter um heliponto homologado. "Ele começou a ser habitado em 1983, mas o heliponto nunca foi homologado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). No caso de emergência, se alguém precisar, pode descer ali. Suporta bem o peso. Só que falta uma aba metálica em volta para dar mais segurança. Pela análise dos moradores foi melhor não ter homologado, pelo sossego. Se estivesse em funcionamento teria uma circulação de gente estranha subindo e descendo o prédio", afirma o vice-síndico do prédio, Eider Ribeiro Luz.
O zelador Aílton Ferreira, 68, chegou a ver o heliponto sendo utilizado nos anos 1990. "Eu trabalhava em um prédio perto daqui e da portaria a gente via o helicóptero descendo. Saía da portaria só para ver ele pousando. Para mim era interessante", destaca.
Ferreira confessa que nunca imaginou que um dia trabalharia no edifício onde fica o heliponto que ele tanto admirava. "Entrei aqui depois. Trabalho aqui há 13 anos e, como as caixas d'água são aqui em cima, venho com frequência", diz. Porém, desde que iniciou as atividades no prédio, nunca mais viu uma aeronave pousar ali. "Helicóptero é uma coisa de ricaço e eu gostava de ver a aeronave voando", conta.
O único heliponto em prédio não hospitalar homologado pela Anac e em atividade é o do edifício Palhano Premium. O empresário e síndico do prédio Edson Chaves integra o grupo de 180 investidores responsável pela construção. Segundo ele, a estrutura foi feita pensando nos próximos 30 anos. "Londrina está virando um polo de TI (Tecnologia da Informação). Acredito que futuramente vai ter uma utilização grande. Para Londrina, ainda é uma novidade em termos comerciais, mas já tivemos bastante utilização por empresários e políticos e também pelo Corpo de Bombeiros. Qualquer pessoa pode fazer utilização. Temos todas as licenças da Anac. Existe um custo de utilização na faixa de R$ 150, mas o objetivo não foi ter lucro com o heliponto. Os empresários poderão pousar seu helicóptero aqui e depois se dirigir a espaços próximos daqui", explica.
Chaves afirma que o espaço tem sido bastante locado para a produção de catálogos de moda. "Até para álbuns de fotografia de casamento temos alugado o espaço, porque daqui temos uma visão de 360 graus de toda a região." Inaugurado em março de 2015, desde a inauguração cerca de 20 aeronaves pousaram no local.


