Rodrigo Menezes Vieira e Geruza Belo do Amaral com o filho recém-nascido: familiares ainda não conhecem o bebê porque estão ‘presos’ no sítio
Rodrigo Menezes Vieira e Geruza Belo do Amaral com o filho recém-nascido: familiares ainda não conhecem o bebê porque estão ‘presos’ no sítio | Foto: Roberto Custódio



O barulho estridente do choro que ecoou pela maternidade durante a manhã de segunda-feira (25) anunciava a chegada do pequeno Heitor. Com 48 centímetros e 2,8 quilos de pura fofura, o menino de bochechas rosadas, unhas compridas e olhos quase abertos foi uma das dez crianças que nasceram neste Natal na Maternidade Lucilla Ballalai, em Londrina. Mas essa história não tem nada de simples. O nascimento do menino que leva o nome do guerreiro troiano de Ilíada, de Homero, também pode ser considerada uma epopeia.

A previsão era que o primeiro filho do casal de lavradores Rodrigo Menezes Vieira, 26, e Geruza Belo do Amaral, 21, viesse ao mundo por volta do dia 17 de dezembro. Na data, a mãe procurou o obstetra, mas recebeu alta. Teria de esperar mais um pouco. No dia 24, já com 41 semanas de gestação (dez meses, para os não íntimos com a contagem técnica) ficou preocupada e resolveu procurar o médico novamente. Como nada costuma ser fácil na vida do casal, a viagem de 60 quilômetros entre o Assentamento Pininga, no distrito de Lerroville, no extremo sul de Londrina, e a maternidade foi recheada de emoções.

A sequência de chuvas severas que atingiram o município deixou a estrada rural praticamente intransitável. Os lotes dos assentamentos Pininga e Guairacá foram distribuídos no final de 2013. Os acessos existentes foram abertos pelos próprios moradores, de forma improvisada. Em agosto de 2015, o Incra assinou convênio com a Prefeitura de Londrina para a abertura de 100 quilômetros de estradas dentro dos assentamentos, no valor de R$ 3,3 milhões. Até hoje, o projeto não saiu do papel.

O único jeito encontrado por eles foi usar um trator como reboque. "Só conseguimos sair de lá porque um amigo nosso puxou o carro com o trator, senão estaríamos lá e só Deus sabe o que poderia ter acontecido", conta Vieira. Vencida a agonia de ficar atolada na lama prestes a dar à luz, Amaral foi internada e teve o parto induzido pelos médicos. Por volta da meia-noite, começou a sentir as primeiras dores. O que era preocupação se tornou alegria. "Fiquei muito contente ao saber que meu filho nasceria numa data tão especial como o Natal", diz emocionada.

Para ela, o parto de Heitor é um milagre de Natal. "Há muito tempo eu queria um filho, mas ele nunca vinha. Achava que não poderia ter filhos, até que no começo do ano tive a melhor notícia da minha vida." O casal que já havia combinado passar o Natal na casa dos parentes, que também moram no assentamento, teve que desmarcar a programação às pressas. "Dessa vez não pudemos passar o Natal em família, mas temos uma boa desculpa. Vamos voltar para casa com nosso maior presente", comemora o pai.

Um dia depois do parto, nenhum dos familiares do casal havia conhecido o bebê. "Meus pais e os pais do Ricardo estão loucos para ver o neto, mas não conseguem, porque estão presos lá no sítio", lamenta. Sem conseguir retornar para casa, Vieira dormiu dentro do carro, estacionado em frente à maternidade. A previsão de alta era para esta quarta-feira (27). "O Natal já era especial para a gente, agora será mais ainda. Só tenho o que agradecer porque minhas preces foram atendidas", emociona-se a mãe.

A enfermeira obstetra Nilva França conta que o Natal é sempre uma data emocionante na maternidade. "Na noite da véspera todas as mães já ficam ansiosas com a possibilidade de o filho nascer no Natal. É uma data que tem uma simbologia muito grande, é o nascimento de Cristo", ressalta. Ela lembra que existe a mística do primeiro nascimento do ano, logo após o réveillon, mas diz que a emoção do Natal é impagável. "Passar o Natal no trabalho longe da família não é fácil, mas são coisas assim que fazem valer a pena nosso trabalho. Isso é muito gratificante", comenta.