Belo Horizonte, 06 (AE) - A direção do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, admitiu publicamente, hoje, que pode ter cometido erros nos exames de aids de 120 pacientes, considerados soropositivos entre agosto de 1998 e maio deste ano. Segundo a direção do HC, a recente comprovação de resultados "falsos positivos" em cinco amostras de sangue levantou a suspeita de que uma parte ainda maior dos 538 testes que acusaram a presença do vírus HIV naquele período - de um total de 3.042 realizados -
também possa estar trocado. O problema pode ter sido provocado por falha humana.
"Acreditamos que o erro ocorreu na fase manual do preparo do material, quando pode ter havido mistura de amostras", disse o diretor clínico do HC, Henrique Gama Torres. Ele se referiu ao momento em que os técnicos separam pequenas quantidades de sangue em pipetas, das quais uma parte não é descartável. As amostras do HC passam por uma sequência de exames conhecidos como Elisa e Westen Blot. "Dificilmente a falha foi no nosso equipamento, já que contamos com um aparelho de última geração, o processo é automatizado e os nossos kits são os melhores do mercado", afirmou.
O anúncio foi feito por meio de uma nota do HC publicada
hoje, em um quarto de página dos principais jornais da capital mineira. Nela, o hospital informa possibilidade do erro e diz que está convocando, por cartas, 120 pacientes cujos resultados foram positivos, que não mais voltaram ao hospital, a comparecer ao laboratório central da unidade para realizar a contraprova. A descoberta de cinco casos de erro ocorreu, segundo Gama Torres, durante o Projeto Horizontes, desenvolvido pelo hospital e que consiste no acompanhamento de pacientes soropositiovos.
"Alguns pacientes apresentaram, no acompanhamento clínico, dados epidemiológicos que não permitiram pensar que houvesse acontecido a soroconversão e, diante disso, resolvemos reavaliar os testes", disse. De acordo com o diretor, não há a menor chance de que os que os exames com resultado negativo estejam errados. "O falso negativo não existe", disse. Gama Torres explicou que, apesar do registro de 538 resultados positivos, o HC fez um amplo levantamento e restringiu a suspeita de erro a apenas 120 exames. "Fizemos um processo intensivo de busca de prontuários e descobrimos que vários pacientes já tinham resultados confirmatórios ou não, aqui no HC ou em outro laboratório, e que outros, também confirmados, já estavam em tratamento", ressaltou.
Para o diretor, poucos, ou talvez nenhum dos pacientes convocados tenham contraprova diferente do exame inicial. "Esperamos um número pequeno ou até que sejam só os cinco já apontados, uma vez que não houve uma mudança substancial no número de exames positivos que costumamos ter no laboratório, nesse período", afirmou. Processos - O presidente do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids de Minas (Gapa-MG), Roberto Chateaubriand, considerou "gravíssimo" o erro detectado pelo HC da UFMG. O promotor de Justiça Fernando Galvão, especializado em erros médicos no Ministério Público, em Minas, disse que caso seja configurada alguma "falha de manipulação de material", os responsáveis podem ser condenados a pagar indenizações por danos morais a quem foi prejudicado. Os técnicos que tenham eventualmente cometido algum erro podem sofrer processos criminais.
"Se o problema estiver na ciência, ou seja, no uso de reagentes, na metodologia dos exames, não há como responsabilizar ninguém", disse. "Agora, se for provado que houve erro de procedimentos, de manipulação, quem o cometeu deve indenizar as vítimas por danos morais e outros de danos, dependendo do caso", disse, lembrando a possibilidade de perda de emprego ou do surgimento de problemas financeiros, em decorrência do resultado do exame. Justiça - Há duas semanas, o juiz da 13º Vara Cível de Belo Horizonte, Luciano Pinto, isentou um laboratório particular da capital de pagar indenização a uma contadora em razão de resultado "falso positivo" de teste de HIV, em 1993. Na sentença, o juiz concluiu que a falha do exame foi provocada pela ciência. O comerciante F.F., marido da contadora, entrou com recurso no Tribunal de Alçada do Estado. Para ele, o laboratório cometeu um erro que quase levou a mulher à morte. "Ela só descobriu que não tinha a doença em 1997, ao fazer um exame de carga viral", disse. "Antes disso, ela tentou o suicídio duas vezes".

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