Cascavel - Eles são cerca de mil e quinhentos. Chegaram a Cascavel (oeste) nos últimos dois anos pelo Acre atraídos por propostas de emprego que, na prática, viram não ser lá tão vantajosas como gostariam. Mas aos poucos foram se unindo em torno de direitos básicos e hoje, com apoio de entidades representativas da sociedade civil, esperam começar a mudar sua realidade.
No primeiro encontro de imigrantes haitianos, realizado mês passado, eles já vislumbravam a possibilidade de se organizar em torno de uma associação. A segunda reunião ocorreu ontem pela manhã, na Câmara Municipal de Cascavel, organizada pela Igreja Episcopal Anglicana e o gabinete do vereador Paulo Porto (PCdoB). E foi um grande passo.
"Eles fecharam questão quanto à organização de uma entidade representativa com o objetivo de buscar reconhecimento e abrir portas para a discussão de políticas públicas que lhes garantam direitos trabalhistas e lutar para que não sofram discriminação aqui na cidade", afirmou o chefe de gabinete do vereador Paulo Porto, Elemar Muller, um dos organizadores do encontro. Segundo ele, os haitianos presentes demonstraram a vontade de começar logo os trabalhos e promover encontros, discussões e debates para que possam se sentir mais integrados também culturalmente à sociedade. Muller destacou que além da igreja anglicana, a Pastoral do Migrante, da Igreja Católica, e a Unioeste são algumas entidades dispostas a apoiar a causa da comunidade haitiana residente em Cascavel.
Na região de Londrina, a migração de imigrantes haitianos e bengaleses tem sido acompanhada de perto pela Cáritas e desperta atenção do Ministério Público do Trabalho, que investigas as condições em que a maioria deles são empregados em frigoríficos.
Elemar Muller afirmou desconhecer denúncias de exploração da força de trabalho dos haitianos que se estabeleceram em Cascavel, mas confirmou que a maioria deles reclama dos baixos salários e de situações trabalhistas envolvendo principalmente demissões por justa causa. "É uma situação que precisa ser apurada de forma cuidadosa para não ocorrer exageros das duas partes", ponderou o assessor do vereador. "Agora, a vida deles é complicada. Eles não têm reconhecimento no lugar onde se colocam. Por isso é importante se organizarem e ir à luta, não podem ficar à mercê de subempregos e em condições insalubres", apontou.

Barreiras
Há dois anos morando em Cascavel com a esposa, o haitiano Marcelin Geffrard, 36 anos, era professor de línguas na terra natal, mas trabalha como cobrador de ônibus. Em um português quase fluente, ele contou à FOLHA que a maioria dos 1,5 mil haitianos que moram na cidade do oeste paranaense não trabalham na própria profissão e ganha menos do que precisaria parta manter a casa e mandar dinheiro para os parentes que ficaram no Haiti. "Ninguém gosta do que está fazendo. Quando chegamos, um supermercado foi nos recrutar para trabalhar, mas os salários eram baixos, não conseguíamos pagar as despesas e ajudar os parentes no Haiti", disse.
A língua e o fato do diploma haitiano não ser reconhecido no Brasil são as maiores barreiras, segundo ele, para que seus conterrâneos consigam empregos melhores por aqui. "A dificuldade da maioria dos haitianos aqui é não falar a língua portuguesa, porque se não falam não conseguem bons empregos", avaliou.
Em Cascavel, há haitianos trabalhando em frigoríficos, cooperativas de frango, na construção civil e no mercado informal. Geffrard, porém, não desiste. Disse que vai participar de um programa de extensão da Unioeste para que possa validar o diploma, e sonha em prestar concurso para dar aulas de inglês e espanhol na rede pública de ensino brasileira. "Não penso em voltar para o Haiti. Quero trabalhar aqui, na minha profissão", afirmou.

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