Santo Domingo (AE-AP) - Numa cama de hospital em Santo Domingo, Maria Gomo deita-se em quieta contemplação, perguntando-se, como outras gestantes em qualquer parte, como dar uma vida melhor para a próxima geração.
Para Maria, isso é muito difícil. Como uma haitiana sem documentos, ela não pode registrar seus gêmeos, e isso, teme, os condenará à ignorância e à pobreza.
"Eu tenho que conseguir os papéis para eles", murmura a bela mulher de 21 anos, batendo em seus ombros com uma toalha molhada para acalmar os nervos e aliviar o calor tropical.
Ela pode não saber, pois é analfabeta, mas a questão dominou as primeiras páginas dos jornais na última semana. A discussão começou quando a Organização dos Estados Americanos obrigou a República Dominicana a mudar sua política que considera filhos e imigrantes haitianos como residentes ilegais.
A notícia provocou protestos raivosos e rejeição de políticos e líderes religiosos aqui, mas ninguém ofereceu soluções para um problema que é muito grande para ser ignorado
O diplomada haitiano Guy Lamothe disse que 280 mil crianças nascidas de haitianos sem documentos vivem aqui ilegalmente. No total, estima-se que entre 1 milhão e 1.5 milhão de haitianos vivem neste país de 8 milhões de habitantes, sendo que a metade deles, ou mais, são ilegais.
Este dilema, criado por forças políticas e pela pobreza, revela muito sobre a natureza humana. Os haitianos, em busca pela dignidade do emprego, quebram leis sofrem abusos. Os dominicanos, que experimentaram eles mesmos o preconceitos nos EUA, desprezam seus oprimidos vizinhos.
"Eles não têm tradição erudita", diz o porta-voz do hospital, Carlos Beira, balançando sua cabeça para a ignorância de Maria. "Sua cultura serve apenas para a sobrevivência".
A socióloga Isis Duarte disse que a atitude dos dominicanos em relação aos haitianos é cheia de contradições.
"A economia dominicana há muito tempo precisa do trabalho barato dos haitianos para o cultivo de cana e café e agora para a construção" porque um haitiano trabalha por US$ 50 por mês, um quarto do salário médio, conta Isis.
Por outro lado, a sociedade dominicana tende a temê-los e desprezá-los porque "nossa história tem sido cheia de conflitos que acentuam as diferenças", acrescenta.
Os dois países, com 8 milhões de habitantes cada, dividem a ilha de Hispaniola. Fala-se crioulo no Haiti, que ocupa um terço da parte ocidental da ilha, supercultivada e degradada, e espanhol na República Dominicana, mais verde, localizada na parte oriental.
Os haitianos lutaram a única bem-sucedida guerra de escravos rebelados do mundo e tornaram-se a primeira república negra em 1804, então invadiram e ocuparam a colônia espanhola de 1822 a 1844. O governo haitiano aboliu a escravidão por aqui, mas também foi cruel.
Neste século, os haitianos sofreram com uma série de sangrenatas e incompetentes ditaduras, concentrando-se na República Dominicana para trabalhar, algumas vezes convidadas, outras não.
A presença de tantos haitianos, que tendem a ser descendentes africanos puros e negros, vem incomodando muitos neste país dominado por pessoas de pele morena com mais sangue europeu.
"Os dominicanos temem a perda de sua identidade para uma vulgar cultura "vudu", diz Antonio Pol Emil, administrados do Centro Cultural Dominicano-Haitiano. "Eles temem uma invasão pacífica por parte dos negros. Eles também são negros, mas não vêem este fato e esta é a grande questão".
ás vezes acontecem brutais campanhas contra os haitianos. A pior foi em 1937, quando 20 mil pessoas foram massacradas pelo ditador Rafael Trujillo na fronteira próxima do rio Massacre.
Hoje, haitianos enfrentam repatriações aparentemente aleatórias e as consequências da ilegalidade começam, para alguns, no nascimento.
"Eu não posso dar certidões de nascimento", disse o diretor da maternidade do hospital, Hector Manuel Eusebio. O hospital produz um documento não oficial que precisa ser levado a um escritório do governo junto com os papéis de residência dos pais. Sem este processo, uma criança não pode ser registrada.
Maria disse que planeja tentar subornar funcionários para conseguir os desejados papéis, que ela ouviu dizer custam US$ 190, para permitir que seus filhos sejam educados. A quantia é muito maior do que seu marido ganha por mês trabalhando numa construção.
Casos nos quais os papéis adequados não podem ser obtidos tornam-se um probelma para o chefe da imigração, Danilo Diaz.
"Todo país tem suas regras", diz ele. "Estas pessoas vieram para cá ilegalmente. Pela lei, não tê, quaisquer direitos na República Dominicana". Diaz estima que mais de 1.500 são repatriados mensalmente, mas não há dados precisos.
Pierre Luis, 28 anos, foi repatriado, mas não antes de ter guardado dinheiro suficiente para pagar por sua volta.
Agora, ele é parte da equipe que faz escavações para uma nova estrada. O grupo algumas vezes dorme no local, conta, e eles nem
sempre recebem todo o salário. "Eu não tenho direitos. Eles podem atirar em mim na rua", diz ele com resignação. "Meu sonho é achar um emprego no Haiti e sustentar uma família. Se eu pudesse fazer isso, eu não estaria aqui, eu não toleraria os insultos.

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